No início do ano, a população urbana catarinense se deparou
com a notícia de que a construção de casas perto da Lagoa da Conceição, em
Florianópolis, seria proibida. O motivo é o cumprimento da legislação ambiental
federal que proíbe construções a menos de 30 metros da faixa de
areia. Este ato do Ministério Público trará dor de cabeça para outras áreas
litorâneas, é só aguardar.
Com isso, a população local ficou assustada e preocupada em
perder suas casas ou em não poder construir residências já planejadas. Há muito
tempo agricultores familiares e produtores rurais vivem perturbados com isso,
em como fazer para continuar vivendo e abastecendo esse país tão grande com as
exigências ambientais às quais estão sendo submetidos. Veem-se obrigados a
respeitar a Lei 4.775/65, de 45 anos atrás, e o Decreto Presidencial 6.514/2008,
que remete praticamente toda a atividade econômica à ilegalidade ambiental.
Há muito tempo venho estudando a legislação ambiental
brasileira e cada vez mais me convenço de que o Brasil criou um cartório
ambiental, sem estrutura e o mínimo de critério técnico e científico. São mais
de 16 mil instrumentos regulatórios que tiram as noites de sono do setor
produtivo rural e urbano, engessando e trazendo enormes dificuldades para a nossa
economia.
É sempre uma luta feroz que se trava na discussão em busca
de responsáveis por crimes ambientais hediondos. Mas no final os agricultores sempre
são apontados como culpados, como “aqueles que destroem o meio ambiente”.
Nessas andanças pelo Brasil, pelas audiências da Comissão Especial do Código
Ambiental, o que vi, e o que todos deveriam reconhecer, são agricultores –
trabalhadores que lutam por suas atividades, por melhor qualidade de vida e por
garantias, que pensam na produção brasileira que abastece o País e exporta para
manter o superávit da balança comercial e gerar 33% dos empregos.
Diante desse quadro, só me vem uma pergunta à cabeça: até
quando governo e sociedade ficarão indiferentes a esta realidade? O Brasil está
expulsando um patrimônio importantíssimo: o agricultor, aquele que tem calo na
mão e que de uma hora para outra é obrigado a ir para a cidade. Quem sabe um
dia volte para o campo por meio da reforma agrária.
Um dia o agricultor sai do campo, consegue um dinheirinho com
a venda da propriedade, e vai viver longe de problemas de chuva, sol, mosquito
e ter direito à luz, telefone, além de calçamento e até à compra de uma casinha
confortável no bairro, bem pertinho do rio, que é para lembrar da roça.
Agora na cidade, chama sua mulher e vai tomar sossegado o
chimarrão lá na área da frente quando vê chegar a polícia ambiental dizendo que
estão ilegais perante a lei, por que a casa está distante 29 metros do lago e não 30 metros.
Assustado, esse agricultor pergunta, “mas seu polícia, a lei
ambiental não é só para quem mora na área rural?”. A polícia ambiental, no alto
de sua autoridade, afirma que não, que a mata ciliar também tem que ser
respeitada na cidade, está na lei.
Pois é, a lei ambiental também vale para a área urbana, mas
poucos se preocupam com isso. Chegou a hora de as sociedades rural e urbana
abrirem os olhos para a questão ambiental e cobrar do Congresso Nacional uma
legislação mais atual, e que retrate o Brasil real, que compatibilize com
equilíbrio e bom senso as atividades econômicas e o meio ambiente. Não adianta exigir
dos produtores a preservação se a cidade continua poluindo, construindo em
áreas de risco, sem buscar soluções para a atual legislação ambiental, fazendo
de conta que nós, moradores da cidade, não temos nada com isso. Que cada um
faça a sua parte. Este é o desafio!
(*) Valdir Colatto é engenheiro agrônomo, deputado
federal pelo PMDB/SC e presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA)
no Congresso Nacional