Projeto
coordenado pela Universidade Federal de Goiás envolve nove instituições no País
e terá R$ 5,9 milhões em recursos
Carla Guimarães
Nem soja, nem
palma ou outra oleaginosa. Na corrida pela produção de biodiesel são organismos
unicelulares aquáticos que chamam a atenção, as microalgas. Estudo do Banco
Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES) mostra que a indústria
do setor utiliza apenas 34% de sua capacidade instalada, atualmente de 4,45
milhões de metros cúbicos, para produzir o biodiesel usado na proporção de 5%
na adição ao diesel, o chamado B5. O levantamento revela a necessidade de
ampliar a demanda pelo produto, estimada em 1,53 milhão de metros cúbicos em
2009, e destaca ser essencial a busca por matérias-primas mais eficientes que a
soja, que tem produtividade de 0,2
a 0,4 toneladas de óleo por hectare. Duas opções são
apontadas: o pinhão manso e as microalgas, estas consideradas pelos técnicos do
BNDES a alternativa, a longo prazo, mais promissora comparada a qualquer
cultura vegetal tradicional.
No
País já ocorrem pesquisas para a produção de microalgas com o propósito de usar
o óleo extraído na fabricação de biodiesel. Um dos projetos mais recentes é
coordenado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Denominado de Pesquisa de
Desenvolvimento e Inovação em Tecnologia para Produção e Uso de Biodieseis
Derivados de Óleos de Microalgas, o projeto, segundo o seu coordenador,
pesquisador e professor da UFG Nelson Roberto Antoniosi Filho, “talvez seja o de maior
abrangência e um dos poucos que visam à produção de microalgas em grande escala”.
A
pesquisa tem recursos assegurados da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep)
da ordem de R$ 5,9 milhões. A assinatura do convênio entre a instituição e a
rede de pesquisa ocorreu no início de junho. A previsão é que a primeira
parcela seja repassada neste mês. Daquele total, R$ 4,7 milhões serão
destinados ao projeto e R$ 1,2 milhão à contratação de bolsistas. A
contrapartida não financeira da rede, sustentada pelas universidades
participantes, é o salário dos profissionais das nove instituições envolvidas,
que soma R$ 2,5 milhões, elevando o investimento para R$ 8,4 milhões. “Por lei
não podemos pagar alguém que já receba dos cofres públicos”, explica o
secretário técnico de Energia e Biocombustíveis da Finep, Laercio de Sequeira.
O
recurso será repassado em seis parcelas semestrais no período de 36 meses –
prazo estabelecido para a execução do projeto. O montante de cada repasse não é
fixo, e pode ser alterado conforme o andamento da pesquisa, que será acompanhada
pela área de operação da Finep. A primeira parcela é repassada logo após
registro e publicação do convênio. Até o dia 23 de junho o convênio estava
aprovado e assinado, e o início da
execução da pesquisa aguardava a liberação do recurso, segundo Antoniosi Filho.
A rede de pesquisa foi idealizada a partir de maio do ano passado em reunião
com a Finep e o Ministério da Ciência e Tecnologia. Entre as nove instituições
participantes, a Universidade Federal de Goiás foi a escolhida para
coordená-la. Além da UFG integram a rede: Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Universidade Federal
da Paraíba (UFPB), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade
Federal do Paraná (UFPR), Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), Instituto
Nacional de Tecnologia (INT) e Universidade Federal de Lavras (Ufla).
Pesou
para a escolha da UFG o fato de a universidade goiana ter um laboratório de
referência nacional no setor de biodiesel, fator que a levou a ser coordenadora
nacional da rede de controle de biodiesel. A experiência do professor Antoniosi
Filho na elaboração e coordenação de projetos em rede também ajudou. É a quarta
rede nacional de pesquisa que ele coordena. Ao todo 40 pessoas participam, dessas,
dez pesquisadores sêniores e as demais bolsistas, alunos de pós-graduação e
graduação.
O papel de cada instituição nessa
rede de pesquisas
A
rede de pesquisas tem um cronograma rigoroso a ser seguido, acompanhado pela
área de operação da Finep. “Se a faculdade diz que vai fazer algo em seis meses
é bom que consiga, mas em se tratando de pesquisa pode acontecer de o resultado
não sair no tempo esperado ou alguma meta ser até cancelada”, explica Laercio.
A
responsável pela execução do projeto é a UFG e a gestora, a Fundação de Apoio à
Pesquisa da universidade (Funap/UFG), que também será responsável por fazer todos
os gastos e comprová-los perante a Finep. “É ela que vai receber a lista de
necessidades das instituições envolvidas e repassar o que for solicitado”, disse.
O projeto
possui várias partes que dependem uma das outras. A primeira etapa consiste no
cultivo de microalgas em laboratórios, o que será feito pelas universidades federais
de São Carlos, Espírito Santo e Paraíba. Nessa fase, os organismos que
apresentarem maior produção e viabilidade econômica serão produzidos em grande
escala pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT).
A Universidade
Federal do Paraná realizará o estudo para extração do óleo das algas. A Ufla,
por sua vez, estudará os processos de utilização da torta da alga (o que sobra
depois da retirada do óleo). A UFRJ vai estudar a melhor forma de transformar o
óleo extraído em
biodiesel. A qualidade do óleo e do biodiesel será avaliada
pela UFG e Tecpar. Antoniosi Filho explica que algumas etapas serão feitas de
forma independente e, outras, concomitantemente.
A UFG
também será a responsável pela avaliação da viabilidade econômica e ambiental
da produção de biodiesel a partir de microalgas. Segundo ele, o custo/benefício
da cadeia poderá ser definido ao final do projeto. Antoniosi Filho diz esperar
ser viável a produção de biodiesel de microalgas. O Ministério da Ciência
e Tecnologia costurou essa rede e convidou os pesquisadores a participarem do
projeto.
Como vantagem, ciclo de produção (muito)
mais curto
Hoje, a
soja e o sebo bovino são as principais matérias-primas para a produção de
biodiesel. Segundo o BNDES, em setembro do ano passado, o óleo de soja era
responsável por 75% da matéria-prima utilizada para produzir biodiesel e a
gordura bovina, por 16%. Uma desvantagem da soja é que, se houver quebra em alguma
safra da cultura, a perda será de seis meses de trabalho, enquanto se o mesmo
ocorre com a microalga, se perde cerca de uma semana. “É aliar alta
produtividade com menor risco operacional”, diz o pesquisador, que afirma
serem necessários poucos dias para a produção das microalgas.
Serão
avaliadas na pesquisa cerca de 250 espécies de microalgas, tanto marinhas como
dulcícolas. As espécies serão isoladas e cultivadas em laboratório. Depois
será feita a produção em escala da espécie que apresentar rapidez de
crescimento, maior produção e valor agregado, e melhor qualidade do biodiesel,
bem como menor custo de produção e menores impactos ambientais. Segundo Antoniosi
Filho, o projeto não é único no Brasil, havendo outros que se encontram em
diferentes estágios de desenvolvimento.
A
produção de microalgas depende de dois itens básicos: dióxido de carbono – elas
metabolizam o CO2 e convertem em óleo – e luz, o que, aliado à
quantidade de água e à diversidade de espécies disponíveis no País, fazem do
Brasil o local propício para a cultura.
Para a
pesquisa, não é recomendada a utilização de ambientes naturais com grande
diversidade de espécies. “O ideal é efetuar o cultivo controlado para não
haver risco de contaminação por outras espécies que diminuam a produtividade ou
afetem a qualidade e a quantidade de óleo.”
O projeto
começou a ser pensado em maio de 2009 e, em outubro, foi levado para avaliação
da Finep. O pesquisador diz não ter ainda uma estimativa do potencial de
produção de óleo da microalga. “Em ciência não se chuta quantidade.” Mas
destaca: “A expectativa é que seja viável para a instalação de um sistema em
grande escala”.
Financiamento de projetos em Goiás
Atualmente em Goiás 35 projetos em execução recebem
recursos do Finep. As áreas são diversas, vão desde saúde até infraestrutura
para instituições de pesquisa e biocombustíveis. Outros seis estão em fase de
avaliação e uma mesma quantidade em fase de contratação.
Segundo
o secretário técnico de Energia e Biocombustíveis da Finep, Laercio de
Sequeira, inúmeros projetos que se encontram em fase de desembolso de recursos na
Finep tratam da produção de biocombustíveis. “Os principais apoios da Finep
neste tema estão concentrados em biodiesel e bioetanol.” No primeiro, estão em
desenvolvimento cerca de 60 projetos no montante de R$ 60 milhões. No segundo,
há 37 com recursos de R$ 159 milhões.