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 Poupança rural

Poupança rural

Para aonde vai o dinheiro do campo

 

Depósitos na caderneta rural explodem e sobra crédito nos bancos, que desviam o dinheiro para grandes grupos nacionais e estrangeiros

 

Lauro Veiga Filho

 

A captação líquida da poupança rural bateu recorde no ano agrícola encerrado em junho de 2010, segundo dados do Banco Central (BC). Nesses 12 meses, os depósitos superaram os saques no sistema por uma diferença de R$ 9,359 bilhões, diante de R$ 2,833 bilhões no ano-safra 2008/2009. O avanço foi de nada menos do que 230%, com incremento mais relevante nos últimos seis meses.

 

Entre janeiro e junho, aponta a série estatística divulgada pelo BC, a captação líquida superou R$ 3,414 bilhões, num salto de 364% na comparação com o primeiro semestre do ano passado, quando os recursos líquidos depositados na poupança rural haviam somado R$ 736,280 milhões. Os números mostram que, definitivamente, a oferta de crédito para o campo não tem sido um problema real e provavelmente não será também ao longo da safra iniciada em julho.

 

O manual do crédito rural determina, entre outras medidas de apoio à agropecuária, que 70% dos depósitos da caderneta rural sejam destinados ao financiamento de empréstimos a produtores, cooperativas e empresas agropecuárias – categoria que ganhou flexibilidade enorme na interpretação conferida pelos bancos públicos e privados, passando a incluir grupos econômicos e empresas, inclusive multinacionais, que mantêm baixa relação com os negócios rurais ou que poderiam perfeitamente dispensar esses recursos, o que faria com que sobrassem em maior volume para aqueles que de fato mais dependem do crédito rural.

 

Num cálculo aproximado, tomando como base o saldo líquido da poupança rural informado pelo BC, o campo poderia ter recebido na safra 2009/2010 injeção de recursos mais de três vezes maior do que a do ano agrícola anterior, pulando de menos de R$ 2 bilhões para alguma coisa além de R$ 6,5 bilhões. De acordo com o manual, pelo menos 68% desses recursos, algo como R$ 4,4 bilhões, devem ser obrigatoriamente emprestados a produtores e a cooperativas agrícolas. Os demais 32% (R$ 2,1 bilhões, no caso) podem ser destinados a empresas rurais, como fabricantes e fornecedores de insumos e agroindústrias em geral.

 

O vigoroso crescimento da captação da poupança rural, no entanto, tem “estimulado” o sistema financeiro a elaborar interpretações bastante heterodoxas para as normas que regem o crédito rural, especialmente no que diz respeito à definição de empresa rural. Tudo para evitar que o dinheiro não emprestado seja recolhido pelo BC, sem direito a qualquer remuneração para os bancos.

 

As informações que chegaram a público até aqui, divulgadas ao mercado por meio de publicações da imprensa especializada, mostram que essa prática ganha corpo e extrapola até mesmo os limites estabelecidos pelo manual do crédito rural. Segundo esses números, que não refletem o total das operações já realizadas, o valor dos recursos emprestados a empresas de energia elétrica e do setor petroquímico aproxima-se de R$ 2,7 bilhões, o que corresponde a mais de 40% dos recursos da poupança rural que, em tese, deveriam estar à disposição de produtores e de suas cooperativas.

 

Bancos escolhem “clientes especiais”para emprestar

 

Esse dinheiro, ao que parece, não foi aplicado na produção de alimentos, nem muito menos na sua comercialização, mas tem chegado com desenvoltura a grupos que guardam ligação apenas distante com o campo. Os bancos e o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) alegam que os recursos têm sido utilizados em “operações estruturadas”, desenhadas para atender clientes especiais, em condições também especiais, financiando o alongamento de passivos, por exemplo, ou investimentos de médio prazo, mesmo que esses projetos não tenham sido concebidos para atender às necessidades do meio rural.

 

Em bom português, embora mais barato do que as linhas de crédito normalmente oferecidas pelo mercado, esse dinheiro não está disponível para qualquer um. É preciso ter um bom pistolão ou um relacionamento muito próximo com os bancos, o que poucos produtores podem se dar o luxo de ostentar. O resultado, como sempre, é maior concentração no crédito rural e maior concentração de riquezas também.

 

Segundo informações do mercado, essas “operações especiais” com recursos da poupança rural (ou seja, com o dinheiro do próprio produtor ou pecuarista) possuem prazo de três a cinco anos, ainda que o manual limite esse prazo a um ano para pobres e mortais tomadores de crédito, e juros ao redor de 96% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Os bancos emitem CDI quando precisam levantar algum dinheiro emprestado de outros bancos, usando os chamados juros Selic como base para cálculo das taxas que vão pagar entre si.

 

Isso significa que as taxas contratadas nas operações com recursos da poupança rural ficam abaixo dos juros básicos (a tal taxa Selic), fixados em 10,25% desde a mais recente reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, realizada no dia 9 de junho passado. Apenas para comparação, a mesma empresa de energia favorecida em uma dessas operações teve de pagar juros quase 15% mais elevados para financiar seus negócios no mercado. Ainda mais caro dos que os 6,75% cobrados nos empréstimos rurais tradicionais, isso não deixa de ser uma vantagem, já que, de outra forma, essas empresas não poderiam ter mesmo acesso ao crédito rural.

 

Energia elétrica e postos na lista do crédito rural

 

Apenas entre março e junho deste ano, quatro daquelas transações foram divulgadas pela imprensa, envolvendo a Cemig, Neoenergia e Energias de Portugal (EDP), grupo que trabalha na geração e transmissão de energia em sete Estados brasileiros, além do Ultra, com atuação nos segmentos de petroquímica, produção e distribuição de combustíveis, incluindo o etanol. Em todos os casos, o Banco do Brasil operou como agente financeiro.

 

Os maiores volumes beneficiaram o Ultra, que tomou, em duas operações, uma realizada em março e outra em junho passados, um total de R$ 1,4 bilhão. O grupo alega, em sua defesa, que sua holding, a Ultrapar, decidiu recorrer a essa linha de crédito agroindustrial “por ter o etanol como um importante elemento na cadeia de geração de valor em sua atividade de distribuição de combustíveis”. O grupo controla a rede Ipiranga e, “em função dessa atividade”, coloca-se entre os maiores compradores de etanol no mercado brasileiro, expôs em nota divulgada pelo jornal Valor Econômico (18, 19 e 20 de junho de 2010).

 

Vender etanol, portanto, passou a ser considerado como critério de enquadramento no crédito para agroindústrias. No caso da Ipiranga, a bem da verdade, a empresa produz uma parcela da cana que é utilizada para gerar o etanol distribuído no mercado doméstico. Menos mal, ou não? Afinal, a Ultrapar encerrou 2009 com R$ 1,354 bilhão em caixa, depois de investir R$ 1,106 bilhão na compra da Texaco e ampliar seu lucro líquido em quase 20%, para R$ 467 milhões.

 

No caso das empresas de geração, distribuição e transmissão de energia, a justificativa é que essas fazem parte da cadeia de fornecedores do setor agrícola, já que proveem energia ao campo. Nessa linha, até fabricantes de televisores, antenas parabólicas e geladeiras, entre outros eletrodomésticos, poderiam ser considerados aptos a tomar o crédito mais barato da poupança rural, já que praticamente toda fazenda consome aqueles produtos.

Mas há limites, enfim. As concessionárias de energia só podem contratar empréstimos rurais limitados ao tamanho do faturamento obtido com o fornecimento de energia ao campo. A Cemig, por exemplo, levantou R$ 600 milhões e faturou cerca de R$ 550 milhões com a venda de energia ao campo no ano passado.

 

A portuguesa EDP e a Neoenergia, sob controle do grupo espanhol Iberdrola e da Previ, fundo de pensão do BB, tomaram, pela ordem, R$ 135 milhões e R$ 298 milhões, num total de R$ 433 milhões. Sempre com recursos do crédito rural. A EDP terá cinco anos para pagar o empréstimo e a Neoenergia, três anos, podendo turbinar seus negócios na Bahia, no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, onde detém concessão para distribuir energia.

 

Sistema perpetua distorções

A decisão de permitir acesso ao crédito rural de grupos econômicos que já dispõem de alternativas de financiamento no mercado, além de grande capacidade de geração de caixa, apenas agrava a série de distorções que o sistema de crédito rural tem cultivado ao longo de décadas. Nos primeiros quatro meses deste ano, dado mais recente divulgado pelo Banco Central, o crédito rural financiou 448,38 mil contratos de custeio, comercialização e investimento, liberando um total de R$ 15,033 bilhões a produtores e a cooperativas.

 

Os contratos com valor superior a R$ 300 mil receberam 45,6% dos recursos desembolsados entre janeiro e abril de 2010, diante de uma participação de 44,6% em igual período do ano passado. Detalhe: essas operações dizem respeito a 5.222 contratos, ou 1,16% do total. Quase 70% dos recursos do crédito rural foram destinados a produtores e a cooperativas do Sul (33,95%) e do Sudeste (35,34%). Somadas, as duas regiões responderam por 47,73% do número de contratos. O Nordeste, com 39,37% dos contratos, recebeu apenas 9,35% do crédito, enquanto o Norte, que registrou 6,76% das operações contratadas, conseguiu 3,56% dos recursos. Para o Centro-Oeste, a relação mostra-se mais desequilibrada: com 7,14% dos contratos, a região colocou a mão em 17,79% dos recursos, ainda distante de sua fatia na produção brasileira de grãos, que se aproximou de 35% na safra 2009/2010.

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