Engenheiro agrônomo e supervisor
técnico do Departamento Agrícola da Algarea Mineração S/A, o carioca Ricardo
Antônio Tavares de Macedo está em Goiás para disseminar a aplicação de um
produto que pretende melhorar a eficiência da agricultura e da pecuária: a alga
denominada Lithothamnium. A empresa que
representa vem empreendendo estudos de monitoramento na plataforma continental
brasileira para a sua exploração sustentável.
Trata-se de uma espécie de
biocatalisador composto por mais de 40 micro e macronutrientes, rico em cálcio
e magnésio. Segundo Macedo, os bons resultados de seu uso são comprovados nos
segmentos vegetal e animal. Inclusive na forma de produtos que melhoram a
fertilização do solo e a nutrição de bovinos.
O agrônomo revela que, em Goiás,
existem pesquisas sobre a Lithothamnium
há quatro safras. Rio Verde, por exemplo, foi alvo da instalação de unidade
experimental onde o mineral passou por testes de eficiência. “Há quem diga que
a alga é uma tabela periódica pelo fato de se enriquecer no mar”, declara.
A Algarea visa também atender às
necessidades do agricultor familiar, procurando baratear o preço dos produtos.
Superadas questões de natureza técnica, Macedo entende que o fato de se abrir
uma filial em Goiânia significará a eliminação de entraves, como os
intermediários. E, em seguida, viria a implantação do relacionamento pós-venda
– no caso o aumento da capilaridade da assistência técnica, na medida em que
haja maior adesão dos proprietários rurais.
Safra – Como é constituída a alga Lithothamnium?
Ricardo Macedo – A
Lithothamnium é um biocatalisador
orgânico composto por mais de 40 micro e macronutrientes, rico em cálcio e
magnésio. Com ele, se faz o processo de fotossíntese e essa variedade cresce se
enriquecendo com elementos da água do mar. Em boa parte, eles são nutrientes da
própria alga essenciais aos organismos vivos. O produto final é um material que
se fragmenta com facilidade por ser macio e poroso. É conhecido também o
processo de liberação ou desprendimento de sua estrutura física, cuja maciez
mais a movimentação das correntes marítimas provocam o choque desse material e
a consequente fragmentação. Na verdade, formam-se bancadas de fragmentos da
alga, constituindo-se na matéria-prima da Lithothamnium.
Safra – Quem iniciou esse processo?
Ricardo Macedo – Os
europeus são os pioneiros no estudo e nas pesquisas, sobretudo os franceses. O
Brasil começou a pesquisar no fim do século 20. A Algarea Mineração,
fundada em 2000, vem desenvolvendo inúmeras análises da matéria-prima da alga
depositada na plataforma continental, com seu imenso potencial para os mais
diversos mercados. Até então, o uso industrial não detectava qual a dosagem
ideal para aplicação. E isso nós estamos fazendo agora numa segunda etapa de
estudos.
Safra –Como a empresa
extrai a matéria-prima?
Ricardo Macedo – O processo produtivo consiste na
extração de matéria-prima com embarcação própria e beneficiamento em área
industrial de 17 mil metros quadrados com porto no local. A jazida atualmente
em exploração localiza-se no Espírito Santo, a 24 quilômetros do
litoral de Itapemirim. A extração é realizada a uma profundidade entre 13 e 20 metros, de forma
pontual, controlada por GPS, com utilização de draga de caçamba fixada em
embarcação autopropelente, com capacidade de transportar até 1.300 toneladas de
matéria-prima por viagem. O processo de beneficiamento consiste em pré-moagem,
secagem, moagem, ensacamento e estocagem do produto final, em estrutura
industrial moderna obedecendo a altos padrões de qualidade, tecnologia e
segurança do trabalho. A secagem é feita em temperatura controlada para
preservar a integridade dos fitormônios e vitaminas presentes na alga. A
pré-moagem é realizada em moinho de martelo e a moagem final em moinho de rolo
e o ensacamento em máquinas automáticas. Todo o processo industrial é conduzido
e monitorado por equipamentos eletrônicos sofisticados.
Safra – Já existem pesquisas de campo em Goiás?
Ricardo Macedo – Existem
pesquisas há quatro safras. A precisão da dosagem, da quantificação, da época
de aplicação, como se faz a mistura e a proporção dos elementos – tudo isso
está sendo desenvolvido em uma pesquisa iniciada na safra 2006/2007, sob a
supervisão do professor João Carlos de Moraes Sá, da Universidade Federal de
Ponta Grossa. Ele iniciou um trabalho com dosagens de nível crítico nas
culturas de soja, milho e algodão em Rio Verde e em Luís Eduardo
Magalhães, na Bahia. Ambas são regiões de cerrado – a
primeira, com grande concentração de argila e a segunda dotada de solo arenoso.
O professor utilizou duas estratégias, a de aceitar o desafio de melhorar a
nutrição vegetal e o manejo e, em seguida, aumentar a eficiência das adubações.
Um tipo de cerrado que exibe situação melhor em termos de física do solo é o
composto por argila. E, em condições mais críticas, temos o cerrado do
município baiano. Ambas as regiões, contudo, concentram o foco do agronegócio
no Brasil.
Safra – Como os produtos derivados da alga existentes no mercado
agem na fertilização do solo e na nutrição da planta?
Ricardo Macedo – Esses
são posicionamentos importantes dos produtos. Afinal, fertilização e nutrição
integram pesquisas bem definidas na agronomia brasileira. Em termos de
fertilização do solo, a alga atua na migração de carbonatos de alta
reatividade, com quantidade muito baixa, em aplicações localizadas próximas às
raízes. Então, num primeiro momento, existe a ação de fertilização e/ou
ativação dos nutrientes. No processo de enriquecimento, os elementos N, P e K
(nitrogênio, fósforo e potássio) são incorporados em menor concentração. Assim,
a Lithothamnium tem o poder de
potencializar ou reagir, interagindo com o N, P e K. A alga é um otimizador da
eficiência das adubações. Ela assume papel de fertilizante porque é fonte de
diversos nutrientes. Há quem diga que a alga é uma tabela periódica pelo fato
de se enriquecer no mar.
Safra – Esses produtos podem sofrer algum tipo de turbulência
climática?
Ricardo Macedo – Não,
pelo contrário. Os nutrientes são balanceados pela natureza, provenientes de um
ser vivo. Em geral, o organismo vivo está se equilibrando com o meio. E nós
estamos trabalhando com fragmentos, sedimentos do material do que foi um ser
vivo. Esses produtos possuem alta granulometria e depois de granulados se
transformam em uma espécie de talco. Quando entra em contato com o solo reage
com ele. Cada partícula dessa alga possui uma estrutura porosa ou microporosa.
Ela tem uma característica física – são as cavidades microperfuradas. Então, há
a garantia de reatividade com o meio, local de acúmulo de umidade, como no caso
da Lithothamnium. Em termos de raiz,
conseguimos manter umidade em condições mais severas de seca.
Safra – As adubações são favorecidas por esse processo químico e
biológico?
Ricardo Macedo – Nós
sabemos que as adubações em geral têm baixa eficiência, principalmente em
nitrogênio, fósforo e potássio, que são elementos de maior aplicação nas
diversas culturas. Então, temos a possibilidade de fornecer mistura de
fertilizantes na linha de semeadura, ajustar melhor a dosagem do N, P e K e, ao
mesmo tempo, fornecer também elementos com facilidade de absorção pelas raízes.
Gostaria de acrescentar que a alga é usada na alimentação humana como fonte de
sais minerais. Além disso, os animais, a exemplo do gado de corte e de leite,
os equinos e as aves também se aproveitam dela. Nos bovinos, a Lithothamnium é um tamponante ruminal
porque combate a acidez.
Safra – Há outros benefícios para o rebanho?
Ricardo Macedo – Sim.
Para o gado de corte, o suplemento mineral à base de Lithothamnium promove maior ganho de peso e calcificação da
estrutura óssea, proporcionando melhor sustentação do animal e prevenindo
problemas de aprumos e postura oriundos do rápido crescimento. Como já disse,
há equilíbrio da microbiota ruminal. No gado leiteiro, existem pesquisas que
indicam produtividade expressiva de leite, maior sanidade e eficácia na
recuperação de animais com papilomatose bovina. Há, ainda, maior equilíbrio
hormonal e padrões lácteos extraordinários. Vou citar um exemplo: o suplemento
mineral proporciona aumento nos teores de gordura, lactose e extrato seco no
leite de animais com dieta suplementada com 25 gramas diários por
cabeça.
Safra – Em linhas gerais, especifique todas as aplicações na
agricultura e na indústria.
Ricardo Macedo – Na
esfera da nutrição vegetal há ações como fertilizante em pó e estamos
desenvolvendo a forma líquida via foliar e radicular. Na nutrição animal –
rações, sal mineral e aquicultura. Para uso humano, a matéria-prima Lithothamnium funciona como repositor
nutricional e de cálcio.
Safra – Existem, ainda, aplicações fora do setor rural?
Ricardo Macedo – Sim.
Para tratamento de água (biotecnologia), pastas de dentes, cosméticos,
medicina, complemento nutricional, além de aplicativos organo-minerais.
Safra – De que maneira o agricultor pode ter acesso aos produtos
derivados da alga?
Ricardo Macedo – Existem
questões técnicas e comerciais nesse contexto. Nós verificamos que,
tecnicamente, os produtos agem na eficiência da adubação e na elevação da
produtividade. Em princípio, o agricultor deve conhecer as marcas
comercializadas pela Algarea, a única empresa que possui licenças de operação
do mar concedidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis – Ibama, empreendendo estudos de monitoramento na plataforma
para exploração sustentável da alga. Todo o processo é automatizado. O
funcionário não tem contato com o produto. Ele é descarregado dos navios, os
caminhões o transportam à primeira moagem. Passado por uma esteira, é
finalmente ensacado. A empresa empenha-se para introduzir no mercado
agropecuário produtos confiáveis, de técnica apurada.
Safra – Mas como o produto vai chegar ao proprietário rural?
Ricardo Macedo – Estamos
implantando nas fazendas unidades demonstrativas e unidade de validação. Trata-se
de áreas onde reproduzimos os resultados de nossas experiências. Notou-se
melhoria na interação mineral e na potencialização de fertilização nas grandes
culturas em dosagens entre 80 e 150 quilos por hectare.
Safra – Em quantas fazendas foram montadas essas unidades?
Ricardo Macedo – Não
sei ao certo o número exato. Em Luís Eduardo
Magalhães há entre oito e dez propriedades. No Estado de Mato
Grosso fizemos um trabalho em duas fazendas com unidades demonstrativas nas
culturas de algodão e milho safrinha. Em Rio Verde, as unidades foram instaladas em seis
ou sete propriedades e no Triângulo Mineiro (até Unaí) mais dez fazendas. De
qualquer maneira, o desafio é consolidar o trabalho no Brasil Central – Goiás,
Mato Grosso e, inclusive, Bahia, Tocantins e parte de Minas Gerais. Os solos
desses Estados possuem perfil apropriado às condições do cerrado.
Safra – Já se pensou em atender às exigências do agricultor
familiar?
Ricardo Macedo – Acreditamos
que uma das formas de atender o pequeno e médio produtor é abrir uma filial da
empresa em Goiânia. E
estou aqui justamente com este objetivo. Os produtos apresentam três virtudes
essenciais: eficiência no campo, facilidade operacional e viabilidade
econômica. Num primeiro momento, conseguimos obter os resultados agronômicos
esperados. O aspecto operacional é resolvido pela granulação, ou seja, a
aplicação do N, P e K é feita em uma única operação. Já a questão do acesso aos
produtos por um preço acessível é conseguida pela expansão das embarcações.
Quando temos um barco maior, os produtos chegam ao mercado com um custo menor
porque há impacto no preço de venda. Mas ressalto que a instalação de um ponto-de-venda
em Goiânia é fundamental em matéria de logística. Em suma, a empresa quer
atender às exigências de consumo do pequeno produtor, eliminando, inclusive, os
intermediários. Teríamos, então, um representante comercial na cidade e eu,
fornecendo suporte técnico. No futuro, outros técnicos também virão.
Safra – Nesse cenário seria importante valorizar o pós-venda.
Ricardo Macedo – Exatamente.
É o mecanismo mais importante que a venda em si. É isso que vai garantir a
consolidação de um trabalho. Esse relacionamento traz confiança e credibilidade
para a empresa.
Safra – A partir do momento que os produtos derivados da alga forem
disseminados em vários municípios do Centro-Oeste como se estenderá o trabalho
de assistência técnica?
Ricardo Macedo – A
Algarea disponibiliza um serviço de atendimento ao consumidor (SAC) para
esclarecer dúvidas, além de e-mails e telefones, muito embora a ideia seja a de
ampliar o serviço de assistência técnica em médio e longo prazos. Aí está a
vertente mais importante no relacionamento pós-venda, garantindo a eficácia e o
potencial dos produtos. Repito: eficiência na adubação é imprescindível nesse
processo porque muitas vezes o manejo não é adequado.
Safra – Comente a respeito do trabalho de pesquisa que está
desenvolvendo com a Universidade Federal de Goiás (UFG).
Ricardo Macedo – Estamos
com um trabalho que segue os padrões científicos exigidos pela universidade. O
objeto do estudo é o tomate industrial em mistura com o nitrogênio, fósforo e
potássio. Temos uma área nivelada, já preparada, com irrigação. Um aluno muito
talentoso do sétimo período de agronomia nos procurou e aceitamos sua linha de
pesquisa. Ele sugere a aplicação de uma fonte de cálcio para o tomate rasteiro,
viabilizando sua produção sem depender do sol e de adubações pesadas. Adubar
não é entupir o solo com fertilizantes e sim detectar necessidades da planta,
levando-se em consideração o que ela vai extrair na colheita e o que vai ser
exportado no sistema. É um trabalho profícuo ao produtor.