Uso de produtos homeopáticos
no rebanho continua sendo novidade para grande parte dos criadores, mas
resultados no campo estimulam sua aplicação
Carlos Alberto
Pacheco
Existe certa unanimidade entre os pecuaristas sobre os
efeitos da aplicação de produtos homeopáticos nos bovinos de corte e de leite.
O sistema orgânico desses animais apresenta sensível melhora. Nas matrizes
leiteiras ou em doadoras de embrião, a homeopatia facilita os partos, aumenta a
taxa de fertilidade, minimiza o estresse na desmama, além de controlar
infecções em bezerros. Há
estudos que comprovam o sucesso dessa prática em vacas submetidas à TE
(transferência de embriões) ou FIV (fertilização in vitro), ao resolver problemas de retenção de placenta e controle
de parasitas. No caso da bovinocultura de corte, as formulações homeopáticas
atuam no crescimento e engorda dos animais, minimiza o estresse na vacinação e
reforça o sistema imunológico, o que permite uma melhor resposta do organismo
no combate a doenças típicas dos bovinos – febre aftosa, brucelose e pneumonia.
Há uma tendência entre pesquisadores do campo em apostar no
uso de bioterápicos (termo ligado à homeopatia), que superam, mesmo lentamente,
o preconceito quanto à sua eficácia. Os resultados in loco comprovariam essa aposta. “O bioterápico atua como um
estado evoluído da linguagem e como tal, interage, informa ou capacita o
sistema imunoneuroendócrino”, afirma o médico veterinário, consultor e mestre
em Agronomia
Cláudio Tadeu Lopes da Silva.
De forma didática, ele explica que a homeopatia é uma
informação vibratória e provoca alterações em nível orgânico. O bioterápico,
por sua vez, atua como espécie de vacina, mas com inúmeras variáveis e
possibilidades de interferência, ao contrário da imunização tradicional que
atua em único foco. “O sistema alopático baseia-se no princípio ativo”, lembra.
Para ele, a homeopatia propicia, além de ganho financeiro, a
“economia orgânica”. Os produtos administrados aos rebanhos economizam desde o
trabalho dos vaqueiros até o estresse do manejo. A técnica é uma alternativa de
escolha ao produtor e mais um recurso que se pode vale na velha relação
oferta-procura. Em sua análise, a homeopatia reduz os efeitos colaterais nos
animais, reduzindo o estresse químico e aliviando o fígado, que é muito
requerido na alimentação, por exemplo.
Em Goiás, a adoção da homeopatia foi estimuladaapós os anos 70, período conhecido como “a década do
DDT”. “Em 1973, a
Organização Mundial da Saúde (OMS) constatou a ocorrência de uma morte por
minuto na população humana devido a intoxicações por agrotóxicos, tendo
verificado, ainda, aumento do número de espécies de insetos consideradas pragas
da lavoura”, comenta Cláudio. A ação deletéria do DDT estimulou uma busca por
alternativas no campo. Os próprios produtores rurais investiram em estudos a
campo e apostaram num novo método, a homeopatia.
Cláudio entende que deveria haver um trabalho de
conscientização na sociedade a respeito da técnica, “quebrando-se resistências
culturais”. O Estado reúne as condições necessárias (topografia, clima e
variedade de rebanho) para o desenvolvimento de pesquisas da homeopatia em
relação ao resto do País. “Sabemos, hoje, que os pecuaristas querem produzir
carne sem veneno”, destaca o veterinário. De qualquer maneira, como os
resultados da aplicação da homeopatia garantem bem-estar aos animais, a questão
fica restrita no âmbito da “tradição” do produtor. É um processo de escolha e
na busca de abordagens diferentes na criação do gado.
Oferta de especialistas
ainda é escassa
Segundo a homeopata veterinária paulista Maria Thereza Cera
Galvão do Amaral, o profissional pode atuar em propriedades rurais de três
formas diferentes. Em primeiro lugar, quando o veterinário é acionado para
tratar de algum animal doente, ele pode atuar como autônomo ou mesmo contratado
do produtor rural. Em ambos os casos, há duas situações distintas: o
profissional adota uma terapêutica homeopática ou ele próprio é um veterinário
homeopata. “Estão nessa situação a maior parte dos veterinários que utilizam a homeopatia
e atuam no campo”, lembra Maria Thereza.
Num segundo momento, existe o trabalho preventivo na
propriedade, denominado pela homeopata de “tratamento populacional”. O
veterinário faz planejamento do manejo dos rebanhos de forma a garantir animais
mais saudáveis e menos suscetíveis a doenças. Segundo Thereza, profissionais
com essas características são minoria no conjunto de veterinários que utilizam
a técnica no País. Eles precisam ter curso de Homeopatia Veterinária,
experiência em clínica de grandes animais e, obrigatoriamente, “uma sólida
formação teórica sobre homeopatia em geral”.
E, numa terceira possibilidade, quando integrar equipe
multidisciplinar junto com engenheiros agrônomos e zootecnistas, por exemplo,
planejando ou reorganizando a propriedade para a conquista da ‘certificação
orgânica’. “É essencial o veterinário ser homeopata”, reitera. Em sua opinião,
é difícil encontrar esse tipo de profissional no mercado, pois, além de atender
as situações anteriores, precisará fazer planejamento em equipe.
Agropecuária orgânica
– Maria Thereza considera imprescindível entender o que faz um veterinário adepto
da terapêutica homeopática e o veterinário homeopata. Enquanto o primeiro usa
medicamentos homeopáticos da mesma forma que manipula outros tipos de
medicação, cuja avaliação do quadro clínico é a mesma nos dois casos, o segundo
é portador de curso de Homeopatia Veterinária, com sólida formação teórico-prática
em homeopatia. “Seu olhar para uma propriedade e para o animal não é mais o
mesmo, já que ele não procura mais só os mesmos problemas que um veterinário de
formação tradicional procuraria”, explica.
A veterinária destaca a inserção do homeopata na área de
agropecuária orgânica, não só pela atuação profissional em si, mas devido ao
fato de a homeopatia ser uma terapêutica que não deixa resíduos nos animais. Segundo
ela, todas as propriedades rurais, incluindo as orgânicas, podem se beneficiar
dos serviços de um profissional com esse perfil. Thereza avalia que no contexto
da homeopatia veterinária brasileira, os ‘médicos’ de pequenos animais são
maioria. Embora ainda em pequeno número, os que tratam de equinos e dos
chamados animais de produção estão aumentando paulatinamente. Seu trabalho tem
despertado a atenção de pecuaristas, cooperativas, órgãos certificadores
orgânicos e até dos próprios veterinários.