Segundo análise de
consultor, exportações de gado em pé não representam ameaça para a produção de
carne bovina
Carlos Alberto
Pacheco
Há um tema que faz parte da agenda dos pecuaristas há algum
tempo. Quem é a favor ou contra a exportação de gado em pé? O zootecnista e
consultor da Scot Consultoria Fabiano Ribeiro Tito Rosa fez uma avaliação
crítica sobre o assunto, publicado na newsletter
eletrônica Carta Boi, estimulado por
comentários de um renomado economista que criticou duramente a modalidade. O
objetivo de Tito Rosa foi o de oferecer uma visão “alternativa” das exportações
brasileiras, levando em conta uma série de variáveis.
Num primeiro momento, o consultor analisou a distribuição do
Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio pecuário em 2008. O PIB do setor de
insumos (R$ 32,9 bilhões) é praticamente igual ao da indústria (R$ 33,28
bilhões), ambos correspondendo a 15%. O produto da pecuária é duas vezes e meia
maior – R$ 85 bilhões (37%). “Em termos de geração de riqueza, portanto, é a
pecuária quem manda. O PIB gerado no campo supera o de quem vem antes e depois
da porteira”, considera. Para Tito Rosa, “o sucesso da indústria de insumos, em
termos de produção, vendas, receitas e geração de empregos está diretamente relacionado
à renda da pecuária”.
Mas, em relação aos frigoríficos, o consultor afirma que o
desempenho da indústria não está vinculado à renda da pecuária. Segundo ele, o
boi responde por cerca de 80% do custo de produção do frigorífico e, portanto,
sempre vai ofertar um preço baixíssimo. Quando o ciclo pecuário entra em baixa,
indústria e produtor alternadamente ganham e perdem. O fato de se exportar mais
carne não é garantia de a pecuária gozar de preços atraentes, na ótica do
zootecnista. Ele cita um exemplo: de acordo com o Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), entre 2002 e 2006, as
exportações de carne bovina aumentaram 137% em volume e 254% em valor.
No aspecto sustentabilidade, Tito Rosa comentou sobre a
expansão da pecuária na Amazônia Legal e a valorização da terra no Centro-Sul,
que também atraiu criadores de gado pressionados pelo avanço da agricultura.
Com o passar dos anos, as diferenças de preços entre Norte e Centro-Sul se
estreitaram e, ao mesmo tempo, a fiscalização ambiental se intensificou. O
consultor lembra que a pecuária na Amazônia se ressente de um modelo de
expansão mais sustentável por meio de incentivos fiscais do setor público.
Nesse contexto, entra a contribuição das exportações de gado em pé. O aumento da
concorrência pelo boi melhora a valorização da arroba. E os bons resultados
fazem o pecuarista investir em tecnologia. Assim, “promove-se o desenvolvimento
sustentável, a geração de empregos dentro e antes da porteira e, por fim, mais
divisas para o País”.
Abates – Ao
contrário de uma corrente de opinião, de acordo com Tito Rosa, a exportação de
gado em pé não compete com a produção de carne bovina, exceto no Pará. Segundo
ele, as exportações de gado em pé equivalem hoje a 1% dos abates brasileiros.
“Os abates, porém, deverão recuar em quase 4,5 milhões de cabeças. Pode estar
faltando matéria-prima para a indústria, mas não por conta das exportações de
bovinos vivos”, avalia. Ainda assim, o zootecnista acredita que continuará existindo
espaço tanto para o desenvolvimento das duas modalidades de exportação, a da
carne e a do gado em pé.
Quanto à diversificação e redução de risco da atividade, Tito
Rosa sugere como estratégias fundamentais a abertura de novos mercados e a diversificação
do mix de produtos. “É por isso que os maiores exportadores de gado em pé do
Brasil são, justamente, dois frigoríficos”, destaca. E lembra que indústrias
exportadoras de gado em pé não integraram listas de falência e de pedidos de
recuperação judicial em 2008, “que foram bastante longas”.
Como defensor intransigente do livre mercado, Tito Rosa
deixa claro em seus comentários ser favorável às exportações de gado em pé,
além de admitir a importação de bovinos vivos, desde que tais transações não
apresentem problemas sanitários e contribuam para a geração de emprego e renda.
Por outro lado, considera preocupante a defesa da proibição, tributação,
regulação e criação de cotas para essas exportações, justamente num país onde a
fome de arrecadação é insaciável.
Para o consultor, a pecuária nacional é castigada por
diversas pressões, sendo inconcebível gerar mais conflitos dentro da própria
cadeia. Tito Rosa sugere a adoção de algumas medidas, entre elas a criação de
um modelo de rastreabilidade simples e de baixo custo, que atenda ao mercado
externo, o combate ao abate informal, a defesa da imagem da pecuária,
criando-se mecanismos públicos e privados de incentivo à adoção de tecnologia,
e, por fim, a promoção de boas práticas de produção ao longo do processo de
comercialização de bovinos e derivados, incluindo-se o transporte de animais
vivos a longas distâncias.