A fusão da Sadia com a Perdigão
gera inquietação entre produtores independentes. Intensificam-se as discussões
sobre o cenário que se desenha neste início de ano
Hamilton Carvalho
A propósito da fusão da Sadia com a Perdigão, o presidente
da Associação Paranaense de Suinocultores (APS), José Luiz Vicente da Silva, pergunta:
“Que brasileiro é a favor de um monopólio desse tamanho?” Em entrevista à revista Porkworld, edição de novembro/dezembro
do ano passado, o presidente da APS é categórico: “Se o governo não impedir,
vamos agir.” De acordo com ele, o setor – havia mais de um ano trabalhando no
vermelho – teria a situação agravada com a união das duas produtoras de alimentos,
constituindo-se a Brasil Foods (BRF).
Mesmo que a integração das operações ainda dependa de
aprovação, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) autorizou em
janeiro – em virtude de dois pedidos das empresas – compras conjuntas de
insumos e serviços, incluindo carne in
natura, grãos e embalagens. Elas continuam a manter separadas as estruturas
administrativas e comerciais até o julgamento do processo de fusão, anunciada
em maio do ano passado.
Segundo informação da Agência Estado, o conselheiro Carlos
Ragazzo garantiu que a mudança “é mínima” no acordo que o Cade assinara com a
Sadia e a Perdigão. “Os dois pedidos foram aceitos porque as empresas têm uma
participação muito baixa no mercado de carne bovina in natura e na aquisição desses insumos”, disse, assegurando que
não vai haver integração de estruturas. “Elas só vão coordenar a aquisição
conjunta desses insumos.”
A BRF divulgou em novembro passado o balanço do seu terceiro
trimestre, que “consolida os resultados da Sadia (subsidiária integral) e suas
controladas”, registrando lucro líquido superior a R$ 210 milhões e receita
líquida de R$ 5,3 bilhões.
O mercado interno apresentou o melhor resultado, com 58% das
vendas líquidas, representando receita de R$ 3,8 bilhões. As exportações chegaram
a R$ 2,3 bilhões. “A pressão cambial”, diz o informe da BRF, “associada à lenta
retomada dos principais mercados internacionais, comprimiu as margens, mas o
impacto foi amenizado pelo bom desempenho do mercado doméstico.”
A receita e o lucro brutos totalizaram R$ 6,2 bilhões e R$
1,1 bilhão, respectivamente, com resultado operacional de R$ 291 milhões,
significando margem de 5,5%. Esse resultado foi medido pelo Ebitda, expressão
forjada do inglês “earningsbefore interest, taxes, depreciation and
amortization” (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
União de forças –
O presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Wolmir de
Souza, observa que, com a fusão de várias empresas do setor, a exemplo do que
acontece com a Sadia e a Perdigão, a alternativa dos “pequenos” é unir forças.
“Temos que trabalhar esse segmento [de cooperação entre pequenos produtores],
que está fora do mercado e é a grande vítima do processo, mas que faz a grande
diferença, já que a indústria aumenta os preços quando este mercado paralelo,
batizado de ‘independente’, reage”, analisa Souza no site www.accs.org.br.
Ele acredita que neste ano o setor terá um desempenho melhor
do que o do ano passado. “Percebemos nitidamente que o mercado está com ofertas
bem ajustadas, tanto no campo quanto na indústria.” Ele espera que haja “sinais
positivos” do mercado já no final de fevereiro e no mês seguinte, com a
melhoria nas exportações. “Por isso é importante que o produtor mantenha seu
plantel ativo, para que possa ter animais para comercialização.”
O presidente da APS, José Luiz da Silva, na mesma
entrevista, avalia: “Cada vez que uma fusão de grande porte acontece no Brasil,
com certeza os nossos produtores, já tão fragilizados pelo poder financeiro,
ficam ainda mais apreensivos e com menor chance de uma sobrevivência digna.”
Mais adiante é taxativo: “Jamais essa fusão poderá acontecer no Brasil, pois
57% de domínio do mercado é inconstitucional.”
O vice-presidente da Associação Goiana de Avicultura (AGA),
médico veterinário Uacir Bernardes, não se mostra preocupado. “Para Goiás, a
fusão da Sadia com a Perdigão não muda nada, porque a Perdigão está concentrada
em Rio Verde,
no sudoeste, e a unidade da Sadia fica em Buriti Alegre, onde
não existia nenhum parceiro avícola.” Observa que as unidades estão distantes e
não se cria um monopólio do setor “em termos de relacionamento
integrado/indústria.” Acredita mesmo que “essa união vai ser muito boa para
Goiás”.
Embora não veja o fato com tanto otimismo, o presidente da
Comissão de Suinocultores da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás
(Faeg), Eugênio Arantes, afirma que os Estados do Sul serão os mais afetados,
particularmente Santa Catarina e Paraná. “Vai haver pressão para fechamento de
indústrias, porque não há como competir com ‘eles’.”
Baixo consumo – “No
Brasil, o consumo de carne suína é muito baixo”, diz Arantes, e compara: “Na
Áustria o consumo anual per capita é de 76 quilos, enquanto aqui é de apenas
13,01 quilos.” A média europeia é de 45 quilos, ainda bem distante da
brasileira. Fazendo uma correlação da crise financeira internacional com a
queda nas exportações no ano passado, o presidente da Comissão de Suinocultores
da Faeg afirma que 2009 foi um dos piores anos para o setor. “As exportações
para a Rússia, que representavam 80% do total, caíram para 46%.”
“A suinocultura em Goiás é bem tecnificada, e o aumento da
produção estava ligado ao aumento da produtividade”, pondera Arantes para
ressaltar a necessidade de aumentar a demanda interna de carne suína. Nesse
sentido, fala da importância do Projeto Nacional de Desenvolvimento da
Suinocultura (PNDS), resultado de parceria da Associação Brasileira dos
Criadores de Suínos (ABCS) com o Sebrae Nacional e a Confederação da
Agricultura e Pecuária do Brasil, com o apoio das associações e federações estaduais
e dos Sebrae dos Estados. “O Sebrae de Goiás vai investir R$ 248 mil”, informa.
O objetivo do projeto é fazer com que o brasileiro passe a
consumir anualmente dois quilos a mais de carne suína no prazo de três anos,
período em que serão investidos mais de R$ 9 milhões. Não parece muito em
comparação com a média europeia, mas, enfatiza Arantes, isso significa mais 200
mil matrizes no campo. Do total dos investimentos, o sistema Sebrae participará
com cerca de metade, ficando o restante a cargo do sistema ABCS e dos parceiros
institucionais.
No início, o PNDS abrangerá os Estados de Goiás, Espírito
Santo, Minas, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além do Distrito
Federal, com a aplicação dos recursos em geração de conhecimento (R$ 2,1
milhões), produção (R$ 1,1 milhão), industrialização (R$ 1,2 milhão) e
comercialização (R$ 2,3 milhões), com parte destinada a ações gerais (R$ 1,9
milhão).
Segundo dados divulgados pelas entidades envolvidas no PNDS,
os dois quilos acrescidos ao consumo do brasileiro significariam, ainda, a
geração de 12 mil empregos diretos na produção e 60 mil diretos e indiretos na
cadeia produtiva, com a capacitação de 14 mil profissionais em processamento de
cortes suínos e novas tecnologias aplicadas às indústrias, ao comércio e à
produção.
Mercado de aves espera
reação após ano difícil
Com relação ao reflexo da crise financeira internacional no
mercado avícola brasileiro, o vice-presidente da AGA, Uacir Bernardes, diz que
no começo foi muito difícil. “Agora a gente está mais ou menos acertando a
situação do mercado internacional.” Ele acredita que o Brasil, terceiro maior
produtor mundial de frangos, chegue ao segundo lugar, ultrapassando a China em
produção. “Mas somos o primeiro exportador, exportamos 35% do que produzimos.”
Ele chama a atenção para esse porcentual, que representa tão-somente o
excedente. “O mercado interno é o que sustenta a indústria avícola brasileira.”
Apesar da crise, “o pessoal não parou de comer frango”.
Com a acomodação das vendas e o controle de estoques no
mundo, houve superoferta no mercado interno, com a consequente queda nos
preços. “Mas as empresas, percebendo isso, foram se adequando à produção, mesmo
porque faltou dinheiro aqui dentro também”, lembra Bernardes. “Os bancos
fecharam todas as linhas de crédito, todas as empresas foram obrigadas a
diminuir de produção.” Segundo ele, não houve “combinação” para que se
diminuísse a produção, como teriam suspeitado alguns setores. “Houve uma
conjunção de fatores que desembocou nessa diminuição, ofertamos mais ou menos
aquilo que o mercado queria”, assegura, reafirmando que “o brasileiro não comeu
menos frango” em 2009.
“O nosso grande problema é o câmbio, com a atual cotação do
dólar”, assinala Bernardes. “Necessitamos vender mais caro lá fora para ter o
mesmo valor em reais aqui dentro.” Com o quilo do frango em torno de R$ 2 nos
supermercados, havendo mesmo promoções a R$ 1,69, o vice-presidente da AGA diz
que a atividade não está compensando, e as indústrias avícolas perdem dinheiro.
“O produtor integrado não perde, porque não é ele quem banca a atividade, é o
frigorífico.” Para os que trabalham com commodities de frango – o frango
inteiro – “a situação é muito difícil”.
No entanto, ele acredita que este ano vai ser “muito melhor”
do que o ano passado. “O avicultor é antes de tudo um otimista.”