Produtores goianos
perdem oportunidade de negociar a safra em melhores condições ao retardar
fechamento de contratos de venda antecipada
Lauro Veiga Filho
Na safra passada, o estouro da crise financeira global no fim
de 2008, início do plantio das lavouras de verão por aqui, afugentou as
tradings, então às voltas com perdas em operações de hedge e em outras apostas
no mercado de commodities, além de enfrentarem dificuldades geradas pelo sumiço
do crédito em todo o mundo. No ano agrícola em curso, as tradings retornaram às
compras, ainda que com ímpeto menor do que na fase anterior à crise.
A questão é que o agricultor, ao apostar numa improvável
elevação dos preços da soja neste começo de ano, deixou escapar a chance de
fixar preços mais elevados para o grão, que começou a ser colhido em janeiro em
algumas áreas do sudoeste de Goiás, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A exemplo do
que havia ocorrido no ciclo anterior, menos de 30% da safra de soja a ser
colhida neste ano em Goiás, prevista em 7,33 milhões de toneladas pela
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), já tiveram seus preços prefixados
em contratos de venda antecipada.
“Certamente, essa decisão custará caro para os produtores. A
queda nos preços do grão, neste período, não é novidade e estava prevista
diante de uma colheita recorde nos Estados Unidos, da recuperação da produção
na Argentina e da previsão de safra cheia no Brasil”, comenta Douglas Nakazone,
consultor da Agroconsult. Ele coordenou uma das equipes do Rally da Safra 2010,
que deverá divulgar seu balanço no fim de março. Nas últimas semanas, o grupo
liderado por Nakazone percorreu desde Alto Taquari, em Mato Grosso, até Rio
Verde, em Goiás, passando por Chapadão do Sul, Chapadão do Céu, Costa Rica,
Portelândia, Mineiros, Perolândia, Jataí, Caiapônia e Montividiu.
Em Chicago, a cotação da soja caiu de mais de 10 dólares por
bushel para algo entre 9,20 e 9,30 ao longo do primeiro mês do ano. No Brasil, os
preços pagos aos produtores, tomando o Paraná como base, despencaram 13% também
em janeiro, para R$ 36,90 no fechamento do mês, de acordo com acompanhamento
diário realizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada
(Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. Em
Goiás, a saca do grão tem sido negociada a R$ 33, igualmente com tendência baixista.
Embora os números da Conab projetem a mesma produtividade
observada na safra 2008/2009, na faixa de 2,97 mil quilos por hectare para Goiás,
a amostragem analisada pela equipe do Rally da Safra sugere rendimento entre
10% e 15% mais baixo para a soja a ser colhida neste ano. A baixa luminosidade
causada pelos períodos mais prolongados de chuvas e tempo fechado explica a
queda no volume a ser colhido, de acordo com Nakazone.
Nas regiões de Mineiros, Jataí, Caiapônia, Montividiu e Rio
Verde, as lavouras têm sofrido maior pressão por causa da ocorrência da
ferrugem asiática, o que tem exigido, em média, pelo menos uma aplicação a mais
do que a média realizada em 2009, o que significa, no caso da soja precoce, em
torno de quatro aplicações, número que poderá subir para cinco nos plantios de
soja tardia, a ser colhida em março.
Bem que os produtores tentaram escapar da ferrugem ao
antecipar o plantio para setembro, antes mesmo do fim do período de vazio
sanitário. As chuvas caíram mais cedo em toda a região, favorecendo a semeadura
de variedades precoces de soja. De uma forma ou de outra, a decisão deverá
favorecer o plantio de algodão adensado na safrinha, especialmente na região de
Mineiros. A “janela de plantio”, observa Nakazone, é mais curta para o algodão
e a antecipação do plantio pode favorecer a cultura, que assim correria riscos
climáticos menores.
Os baixos preços para o milho, atualmente estacionados em
torno de R$ 14,50 por saca em Goiás, determinaram redução entre 30% e 40% na
área destinada ao cultivo de verão no Estado, avalia Nakazone. “Um dado
surpreendente foi que conseguimos colher apenas cinco a seis amostras de milho
em toda a região visitada”, comenta o consultor. Isso comprovaria a queda
esperada no plantio, já identificada pela pesquisa da Conab. Em dezembro, a
estatal observou retração de 28% na área reservada para a primeira safra de
milho em Goiás, limitada a 387,8 mil hectares, com produção esperada de 2,307
milhões de toneladas (também 28% mais magra).
Com base em consultas a produtores, Nakazone acredita que o
espaço dedicado ao plantio da segunda safra de milho tenderá a ser o mesmo explorado
na safra 2008/2009, próximo a 371,4 mil hectares (conforme previsão da Conab,
mais uma vez). O Rally da Safra retorna a Goiás em março para averiguar as
condições das lavouras de ciclo tardio de soja e de milho safrinha. Entre 25 de
janeiro e 22 de março, as oito equipes que participam do projeto percorrerão 12
Estados, num total de 50 mil quilômetros, analisando 1,5 mil amostras. A
Agroconsult, promotora do rally, espera cobrir 98% da área cultivada com soja e
80% da área de milho no País.
Comportamento de alto
risco
Além de aparentemente desprezar as projeções de preços mais
baixos na entrada da safra brasileira no mercado, os produtores assumiram outro
comportamento de alto risco na atual safra. Neste caso, no entanto, a tática
acabou trazendo bons resultados, avalia o consultor Douglas Nakazone. O grosso
do fertilizante utilizado no plantio foi adquirido de última hora, o que
terminou favorecendo os produtores, diante da queda nos preços do insumo.
Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda),
entre julho e outubro de 2009, as vendas de fertilizantes em todo o País
somaram praticamente 10,715 milhões de toneladas, crescendo 22,4% diante de idêntico
período de 2008. Aquele volume representou 56,2% de toda a venda realizada nos
primeiros 10 meses do ano passado, perante uma participação de 43,2% em 2008. A concentração das
compras num período tão próximo do plantio não impediu que as vendas acumuladas
entre janeiro e outubro ainda indicassem recuo de 5,8%.
Mas a política de compras desenhada para a próxima safra não
deverá repetir essa tática de alto risco. “Os produtores compraram bem, mas não
pretendem arriscar neste ano. Com o aumento da safra, os planos são de adquirir
os produtos antecipadamente”, avalia Nakazone.