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 Plantio direto

Proteção à natureza

 

Sistema de plantio direto contribui para reter no solo quase 13 milhões de toneladas de carbono por ano, mitigando emissões de gases do efeito estufa

 

Carlos Alberto Pacheco

 

As consequências avassaladoras do efeito estufa sobre a natureza deveriam chamar mais a atenção das autoridades que preferem apenas reconhecer o fato, mas nada fazem para combater esse desastre ambiental. Há uma contradição perversa nesse contexto se a análise tomar como base o agronegócio. Responsável por quase um terço do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, o agribusiness responde sozinho por 30% do total das emissões de gases causadores do efeito estufa. O dado poderia ser ainda mais preocupante, caso não houvesse alternativa para mitigar aquelas emissões. Ela existe e chama-se plantio direto ou PD, cuja principal virtude é o manejo adequado do solo, com reais perspectivas de rentabilidade.

 

Tal modalidade de plantio surgiu no início da década de 1970. O produtor descobriu que reunindo palha e restos vegetais de outras culturas para cobrir o solo, seria possível conter erosões, aumentar a água armazenada no terreno, reduzir a oscilação térmica, aumentar a atividade biológica e a matéria orgânica. Haveria, então, uma melhora generalizada na qualidade do solo. Os pesquisadores apontam para uma vantagem adicional – há sequestro de dióxido de carbono em função do aumento do estoque de CO2 no solo e dos elementos orgânicos em decomposição na superfície.

 

Não é exatamente uma informação nova, mas os agricultores tradicionais parecem resistir aos novos tempos e preferem, ainda, revolver a terra com tratores e arados. Existem estudos que comprovam a eficiência do plantio direto e seus inúmeros benefícios. Um deles, de autoria do professor e pesquisador de bioenergia e mudanças climáticas Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, do Departamento de Ciência do Solo da Esalq-USP, aponta as vantagens do sequestro de carbono. Seu trabalho (Agricultura Tropical e Aquecimento Global: Impactos e Opções de Mitigação) é referência na área.

 

Esse estudo partiu de um número expressivo: se quiserem, os produtores podem utilizar uma área de 26 milhões de hectares voltados ao plantio direto no Brasil. A Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha traduz isso em 13 milhões de toneladas de carbono estocadas no solo por ano. De acordo com Cerri, o sistema de manejo do solo está aliado à rotação de culturas e sequestra 500 quilos de CO2 por hectare/ano. Embora os agricultores tenham apego às máquinas e equipamentos para sulcar a terra, os avanços são lentos, mas têm ocorrido. O pesquisador acredita que futuramente o País terá a segunda maior lavoura de plantio direto do mundo, superando os Estados Unidos. “Estamos crescendo a uma taxa de 1 milhão de hectares/ano. É um número impressionante”, avalia Cerri. Para efeito comparativo, um hectare de floresta sequestra 60 toneladas de carbono todos os anos.

 

O pesquisador da Esalq lembra que o CO2 sequestrado pode se converter em fonte de receita para o produtor. Nesse caso, entra em cena o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), instrumento criado em meio às discussões do Protocolo de Kyoto. No mundo, mais de 50 países desenvolvem projetos de MDL. O Brasil é um dos principais. Cerri adverte, porém, que “o carbono sequestrado no solo não está credenciado para esse mercado”, mas poderá ser validado a partir de 2012, no período “pós-Kyoto”.

 

Os estudos do professor da USP apontaram para uma conclusão unânime entre os pesquisadores, ou seja, o potencial de estocagem de carbono no solo varia conforme as características da superfície terrestre e o clima. Nessa linha de estudo, as Regiões Sul e Centro-Oeste se contrastam – na primeira, a temperatura é mais baixa, a matéria se decompõe lentamente e a saída de carbono do solo também é morosa. Na segunda região, mais quente e chuvosa, a decomposição se acelera, o CO2 sai rápido da terra. Na Centro-Oeste, o potencial de sequestro é reduzido.

 

Quando a tecnologia ajuda a preservar

 

Segundo estudo da Embrapa, no Projeto Plataforma Plantio Direto, o ano de 1969 é conhecido como marco histórico da introdução do sistema no Brasil. Naquela época, a Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul importou dos Estados Unidos uma semeadora para plantio direto, marca Buffalo, e semeou um hectare de sorgo na área agrícola do então Posto Agropecuário do Ministério da Agricultura, no município de Não-Me-Toque.

 

Em 1978, a Embrapa Trigo, em convênio com a ICI do Brasil, passou a avaliar semeadoras para plantio direto importadas da Inglaterra e a desenvolver mecanismos “rompedores” de solo para plantio. “Essas ações constituíram os primeiros passos orientadores para a industrialização de semeadoras nacionais para plantio direto”, revela o estudo. Dois anos depois, em 1980, a Embrapa Trigo firmou convênio com a Agência Internacional de Desenvolvimento do Canadá/Ministério da Agricultura do Canadá (Cida), introduzindo no País o mecanismo rompedor do solo, o “disco duplo defasado”, o qual passou a equipar grande parte das semeadoras comerciais brasileiras e também do exterior.

 

No Paraná, destacam-se trabalhos na Estação Experimental do Ministério da Agricultura de Ponta Grossa (Ipeame), participação de produtores e profissionais nesse processo. No início da década de 1970, empresários rurais paranaenses importavam equipamentos dos EUA, aplicando plantio direto em cidades como Andirá e Rolândia. A partir de 1972, agricultores também do Paraná iniciaram o sistema na região dos Campos Gerais, conseguindo reverter o quadro de degradação que persistia “pelo efeito erosivo das arações e gradagens, para um ciclo de prosperidade, com amplo engajamento dos produtores daquela região”.

 

Na passagem dos anos 1970 aos 1980, de acordo com a Embrapa, foi introduzido o primeiro dos herbicidas modernos – o glifosato. Seu princípio ativo atua em elementos bioquímicos do reino vegetal, degradado diretamente no solo. O herbicida é tido como importante propulsor do plantio direto, “por ser sistêmico e de amplo espectro”, controlando todas as ervas daninhas, “dessecando-as ao eliminá-las pela atuação sistêmica”.

 

A partir de 1984 foram conduzidas ações para a criação dos Clubes Amigos da Terra no Rio Grande do Sul, idealizados pela ICI do Brasil. Com a participação da Embrapa Trigo, as ações visavam conscientizar e capacitar tecnicamente os produtores rurais para o plantio direto. Sob a inspiração de centenas de clubes, outras entidades do gênero surgiram e são criadas até hoje no País. Na ótica da Embrapa, o fenômeno contribuiu para a organização de produtores que aderiram ao sistema e abriu formas de transferir e difundir novas tecnologias.

 

Centro-Oeste – É exatamente na década de 1980 que começam a florescer trabalhos de plantio direto no Cerrado e no interior de Goiás, sob a inspiração das experiências bem-sucedidas do Sul. Em Rio Verde, o sistema é implantado pelo produtor Eurides Penha. Destaca-se também o pioneirismo do engenheiro agrônomo John Landers que desenvolveu campos experimentais em Morrinhos. Ele é considerado o “pai” do plantio direto. Landers fez pesquisas sobre cobertura viva de leguminosas, com pastoreio durante a seca.

 

Nesse período, acontecem os primeiros avanços tecnológicos e organizacionais. Além de encontros nacionais, a formação do “Clube da Minhoca”, o lançamento do herbicida não residual glyphosate e da primeira semeadora-adubadora nacional e estudos de campo sobre coberturas com plantio direto demonstraram a viabilidade da integração lavoura-pecuária na nova técnica.

 

Nos anos 1990, o sistema experimentou crescimento vertiginoso no País, sobretudo no Centro-Oeste. O Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) fez demonstração da maior mobilidade de cálcio no solo sob o plantio direto. Outro dado auspicioso veio por meio da Embrapa Agropecuária Oeste (MS), que constatou significativa melhoria da porosidade do solo sob PD (cinco vezes em cinco anos) comparada com solos sob o cultivo convencional com quinze anos de gradagens sucessivas. Outra constatação feita pela Embrapa em Santa Maria (RS) mostrou que os ácidos húmicos provenientes da palha em decomposição tornam o Al (tipo de sulcador) menos tóxico, reduzindo a necessidade de calagem.

 

Ainda de acordo com o Projeto Plataforma Plantio Direto, a Embrapa Trigo, na primeira metade dos anos 1990, realizou pesquisas para desenvolver semeadoras específicas de PD (parcelas experimentais), cuja demanda somente era atendida mediante importação. A Embrapa Trigo ousou mais: em 1999 introduz no mercado uma semeadora caracterizada por permitir a colheita simultânea de progênies de inúmeras espécies e por possibilitar múltiplos comprimentos de parcela, espaçamentos entre linhas, densidades de semeadura e doses de fertilizantes. Naquele ano, a empresa lançou uma semeadora autopropelida, dimensionada para plantio direto em pequenas unidades produtivas.

 

No aspecto organizacional em torno do sistema, o estudo da Embrapa ressalta as iniciativas de criação da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (FEBRAPDP) e da Associação de Plantio Direto do Cerrado (APDC). Tais organismos “congregam produtores e suas cooperativas e entidades de apoio à técnica nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, assistência técnica, extensão rural e de fornecimento de insumos”. A partir do novo século, o plantio direto se consolidou nas Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste e ratificou a viabilidade em termos econômicos e preservacionais de sua adoção na agricultura.

 

Produtores do Sul dominam técnica

 

Junto com o agrônomo John Landers, o produtor rural Manoel Henrique Pereira, o seu Nonô Pereira, 70 anos, é pioneiro do plantio direto no Brasil. Defensor intransigente do sistema, ele lembra que, quando adotou essa forma de plantio em sua propriedade no Paraná, há quase quarenta anos, logo percebeu que as erosões não mais danificavam o solo, possibilitando o armazenamento de mais nutrientes, fertilizantes e corretivos.

Em depoimento ao boletim da FEBRAPDP, seu Nonô explica que a concentração orgânica proveniente do plantio direto salta de pouco mais de 1% para acima de 3%. Para Pereira, o sistema aplicado na palha melhora a qualidade ambiental pela conservação do solo, da água e do ar. O produtor considera crime quando alguém queima a área “porque ele está jogando fora uma contribuição extraordinária da natureza”. Dos 1.625 hectares de sua fazenda, 1.300 são explorados sob a forma de plantio direto.

 

Segundo dados da federação, no Brasil, de 47 milhões de hectares ocupados pelas plantações de grãos, 25 milhões são por meio de PD. A maior parte está concentrada na Região Sul, com 5 milhões de hectares só no Paraná. Na opinião de técnicos do Ministério da Agricultura, o sistema de cultivo aplicado na palha contribuiu para melhorar a operacionalidade e a produtividade agrícola do Cerrado brasileiro, região de solo de savana tropical, com deficiência em nutrientes, mas rico em ferro e alumínio.

O total de áreas cultivadas com o uso da palha, nos últimos 17 anos, aumentou de 180 mil para 25,5 milhões de hectares, com predomínio da soja, milho, algodão e feijão. O agrônomo John Landers costuma dizer ainda que nas culturas irrigadas o plantio direto é importante como forma de evitar a evaporação e reduzir o uso da água, em razão da cobertura do solo.

 

Fertilizantes exigem manejo adequado

 

em artigo recente, o pesquisador da Embrapa Solos, Vinicius de Melo Benites, argumenta que estudos conduzidos pela Universidade de Rio Verde (Fesurv) e pela Embrapa, em parceria com a Comigo, têm mostrado que grande quantidade de nutrientes é absorvida por plantas de cobertura, como as braquiárias e o milheto, sendo esses nutrientes devolvidos ao solo pela decomposição da palhada. “O aumento dos teores de matéria orgânica do solo é outro fator que tem contribuído para melhorar a eficiência do uso de fertilizantes em solos sob plantio direto”, defende.

 

Na avaliação de Benites, “parte dos sítios de absorção de fósforo, responsáveis pelo baixo aproveitamento do fósforo aplicado, é ocupada pelas cargas negativas da matéria orgânica, protegendo o nutriente contra a fixação”. Ele lembra, porém, que é necessário considerar o papel da matéria orgânica para manter ativo o metabolismo microbiano no solo.

 

O pesquisador adverte: adubação na faixa de 40% a 70% do fósforo e de 20% a 30% do potássio, aplicados anualmente no solo, não é absorvida pelas plantas devido a diferentes mecanismos. “Com o manejo correto do sistema, não revolvendo o solo, mantendo sempre uma cobertura viva e reciclando grandes volumes de biomassa, é possível aumentarmos muito a taxa de aproveitamento dos fertilizantes pelas culturas e, com isso, intensificar a eficiência de uso”.

 

O manejo correto do sistema propicia atingir valores de eficiência de aproveitamento de fertilizantes próximos a 100%, ou seja, “a cada ciclo a quantidade equivalente ao nutriente aplicado via fertilizante será absorvida pela cultura. Para nutrientes como o potássio, isso já é, em muitos casos, uma realidade”. Mas para se atingir esse patamar, Benitez recomenda correção adequada do solo e que haja “condições para o máximo desenvolvimento da rizosfera e exploração de maior quantidade de solo possível, até mesmo em camadas mais profundas”.

 

Brasil defende sistema na cúpula do clima

 

Na semana que antecedeu as discussões na Conferência das Nações Unidades sobre Mudança do Clima (CoP-15), em Copenhague, pesquisadores da Embrapa apontaram algumas medidas que poderiam ser propostas aos países desenvolvidos para reduzir a emissão de gases de efeito estufa da agricultura e fortalecer a produção agropecuária. Entre as técnicas de boas práticas agrícolas que ajudam a mitigar gases emitidos pela agricultura, o plantio direto seria uma excelente alternativa. Os Estados Unidos e países do Hemisfério Norte possuem limitações climáticas que impedem a adesão a formas diretas de plantio.

 

Durante a CoP-15, pesquisadores da Embrapa e da Universidade Federal Fluminense apresentaram pesquisa sobre manejo de solo que confirma a eficácia do sistema como prática para conservação do carbono no solo. O estudo mostra que o plantio convencional permite reter cerca de duas vezes menos carbono no solo do que o PD. De acordo com o experimento realizado, o solo, sob plantio direto contínuo, evita que 79,4 quilos de carbono hectare/hora sejam emitidos para a atmosfera. No solo sob plantio convencional, o desempenho foi 63,3% menor.

 

Presente em Copenhague, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) defendeu incentivos econômicos e técnicos ao plantio direto porque, segundo a entidade, a ideia se encaixa perfeitamente nos debates em torno das ações de mitigação dos países em desenvolvimento. “A ampliação da área plantada utilizando essa técnica contribuirá para melhorar o balanço de emissões da lavoura de soja e, também, das demais culturas produzidas em rotação com a oleaginosa”, disse, na ocasião, o presidente da Abiove, Carlo Lovatelli.

 

Em seu discurso, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou que a agricultura “tem possibilidades tecnológicas que neutralizam ou minimizam os efeitos dessas emissões e que podem ser incorporados pelos agricultores no seu processo de produção”. Segundo ela, o objetivo do governo brasileiro envolve quatro ações específicas. São elas: a recuperação de 15 milhões de hectares de pastos degradados, com manejo e adubação, adequados; a adoção de sistema de integração lavoura-pecuária em 4 milhões de hectares; a ampliação do sistema de plantio direto na palha de 27 para 35 milhões de hectares e o aumento da fixação biológica de nitrogênio na produção de soja, expandindo a área objeto em 5,5 milhões de hectares.

 

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