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 E quem vai pagar a conta?

Entrevista: Isaías C. Macedo

 

E quem vai pagar a conta?

 

Lauro Veiga Filho

 

Frustrada a cúpula internacional do clima realizada em dezembro em Copenhague, a meta de redução das emissões de gases do efeito estufa, a esta altura, parece mais distante e apenas uma mudança radical, ainda não percebida no horizonte visível, teria o poder de produzir soluções que evitem o aquecimento global. “Não, não estou otimista”, declara o pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (Nipe/Unicamp), Isaías Macedo, nesta entrevista à Safra-Revista do Agronegócio.

 

O pesquisador recebeu a reportagem durante o intervalo do seminário Etanol e a Matriz Energética Brasileira, realizado na Assembleia Legislativa, como parte do Projeto Agora – Agroenergia e Meio Ambiente, bancado pela cadeia sucroenergética. Macedo afirma que o “espírito da discussão” sobre mudanças climáticas precisa mudar ainda mais, antes que qualquer um possa declarar-se otimista. A grande questão continua sendo quem pagará a conta de um até aqui improvável acordo climático mundial.

 

O especialista vislumbra papel de destaque para o etanol brasileiro no processo de mitigação dos gases formadores do efeito estufa, causadores do aquecimento global. Suas projeções indicam que o uso do etanol será responsável por uma redução equivalente a 130 milhões de toneladas por ano de CO2, a partir de 2020, representando 40% das emissões totais do setor de transportes no Brasil. Mas, sozinho, qualquer país não terá força para alterar a tendência de aquecimento: o mundo, que já emite mais de 50 gigatoneladas de CO2 por ano (algo como 50 trilhões de quilos), terá que reduzir isso pela metade apenas para conter a elevação da temperatura global, limitando esse avanço a 2 graus centígrados até 2030.

 

SafraAs discussões durante a Conferência das Partes 15 (CoP-15), em Copenhague, não alcançaram os resultados esperados. Qual a avaliação a ser feita e, olhando um tema mais específico, de que forma o etanol poderá contribuir globalmente para reduzir emissões de gases causadores do efeito estufa?

Isaías Macedo – Em relação às conclusões desse encontro em Copenhague, o mais provável era que não se chegasse, neste momento, a um acordo fechado e mandatório entre os países, porque isso é muito difícil se levarmos em conta que mesmo o presidente dos Estados Unidos não dispõe de autoridade para decidir sem a aprovação do Senado americano. Embora a rodada tenha ficado travada, a discussão deverá se encaminhar para uma sequência num prazo muito curto, em alguns meses. Ao mesmo tempo em que é difícil estabelecer consensos, há uma consciência muita clara do que deve ser feito. E está mais claro do que nunca que o mundo terá que reduzir as emissões. No momento em que se chega a essa conclusão, uma área em que é extremamente difícil reduzir emissões é no setor de transportes, a despeito de todos os ganhos com eficiência energética, mudanças de sistemas e de modais. Teremos que trabalhar com tudo o que estiver disponível, em termos de tecnologia, daqui para 2030. Tecnologias que envolvem mudanças maiores como, por exemplo, as técnicas para captura de carbono em fumaça de chaminés e para enterrar esse carbono no subsolo, não se tornarão viáveis economicamente antes de mais 10, 15, 20 anos. Nesse contexto, a posição do etanol brasileiro é muito boa, porque é o melhor biocombustível sob o ponto de vista de emissões e isso é reconhecido por todo o mundo. Mesmo que se coloquem restrições por causa das mudanças no uso do solo, no caso do Brasil, a situação é bem melhor do que em outros locais.

 

SafraE quais as perspectivas para o País?

Isaías Macedo – Levando-se em conta a regulamentação que está sendo proposta na União Europeia e a regulamentação atual, ainda não consolidada, nos Estados Unidos, todas as normas indicam o etanol como o melhor biocombustível. Isso é interessante para o Brasil. O problema maior será a implementação ao longo do tempo, já que a conferência do clima deveria resolver, no fundo, a questão sobre quem paga a conta. Ficamos numa situação em que a China, que começa a crescer, embora seja um país com economia grande, população gigantesca e considerado pobre do ponto de vista da população, teria que diminuir o ritmo de desenvolvimento. Com renda per capta muito baixa, a China vai ter que usar mais energia para continuar a crescer. Os chineses decidirão utilizar a fonte disponível no país, que é o carvão, altamente poluidora e para a qual não há solução tecnológica atualmente. Eles estão construindo uma central térmica por semana, praticamente, queimando mais carvão. Se afirmarmos que a China precisa reduzir seu consumo à metade do que era em 2005, quando não se consumia quase nada – e o consumo vai subir muito mais nos anos seguintes –, esse país argumentará que não pode ter a mesma restrição que os Estados Unidos ou Europa, nações que já emitiram poluição durante o crescimento industrial e acabaram com 100% de suas florestas. O Brasil não consumiu a Amazônia. Sessenta por cento da vegetação nativa brasileira ainda está em pé, diante de 1% na Europa. soluçonte altamente poluidora e para a qual nbiocombustil, a situaç

 

SafraEsse é um dos gargalos para o acordo sobre mudanças climáticas?

Isaías Macedo – Esse problema da responsabilidade histórica ainda continuará sendo um complicador. Outro diz respeito aos países em desenvolvimento, que não querem deixar de crescer ou desacelerar para adotar processos muito mais caros que são de benefício global. Um acordo terá que ser fechado em torno disto: quem paga a conta? Essa que é a parte mais difícil.

 

SafraComo o mundo pode tentar enfrentar a questão?

Isaías Macedo – Acho que, primeiro, quando os países chegam e dizem para manter uma floresta em pé, é preciso dinheiro e a questão tem que ser muito bem discutida. Porque não é um problema essencialmente do Brasil hoje, mas África, Indonésia e Malásia também o enfrentam. Temos que buscar uma forma de trabalhar a Amazônia, sem destruir a floresta, porém não permitindo que ela seja considerada intocável, porque não é. Lá vivem 25 milhões de pessoas que precisam sobreviver. É necessário estimular programas para uso de áreas já degradadas e implantar nelas atividades produtivas. Não me refiro à cana, porque não é o caso. Mas alguma atividade que permita alimentar e dar emprego àquelas pessoas. O Brasil terá que encontrar um caminho balanceado para promover essa forma de ação e levá-la adiante. Possuímos uma condição relativamente limpa em termos de emissões e precisamos trabalhar a questão da queima de floresta e da agricultura. O Brasil está trabalhando muito nas técnicas para reduzir as emissões no setor agrícola, com uso de cultivo mínimo e do plantio direto, com a associação entre lavoura, pecuária e outras atividades. Acontece que o Brasil responde por apenas 4% da frota mundial de veículos. Então, tudo o que for feito para cortar emissões não tem sentido se outras nações não fizerem. Isso é quase uma questão de catequese. Todos estão convencidos de que têm que fazer, mas ninguém chegou ainda à fórmula. Agora, maneiras de como começar existem. O que acontece é que se você quiser solucionar tudo de uma vez e disser: “só resolvo a questão da Amazônia se tiver um fundo com bilhões de dólares para fazer aquilo funcionar” muitos, olhando de fora, vão dizer que o único interesse é captar recursos. Acho que o País tem um dever de casa a ser feito na região e tem que demonstrar vontade política de fazer. Alguma coisa já está sendo feita, de fato, mas será necessário avançar. Isso vale para nós e para qualquer país do mundo. A China terá que mostrar como pretende gerar energia sem queimar carvão direto, o tempo todo. Não será fácil, mas ela é o segundo maior poluidor do mundo. O que estou dizendo é que não faz sentido um só país ou grupo pequeno de países reduzir as emissões de forma isolada. E se há alguém que tem que tomar a iniciativa para romper esse círculo são os países que dispõem de recursos, quer dizer, os Estados Unidos e a União Europeia como um todo. Eles teriam recursos para começar. São governos que estão agora, na saída da crise, numa situação de elevado endividamento e que podem considerar que não têm recursos necessários para destinar a esforços globais contra as emissões, fora de seus países. Essa ideia é muito forte e é ela que está prejudicando uma solução mais rápida.

 

Safra Essa questão histórica, a que o senhor se refere, não estaria superada diante do grave dilema que o mundo terá que superar?

Isaías Macedo – No meu ponto de vista, sim. Mas esse não é o único ponto de vista vigente. Hoje, discutir essa questão histórica não vai resolver nada. Estamos nessa situação e teremos que resolver daqui para frente. Não adianta nada dizer que a revolução industrial dos países mais ricos foi que criou o problema do aquecimento. O fato é que ele existe e terá de ser enfrentado. Isso é que é difícil fazer. Coloque-se na posição do governante de um país desenvolvido, que acabou de se endividar em um trilhão de dólares ou mais para cobrir os bancos e o setor financeiro. Ele tem que recuperar esses recursos, ativar sua economia, aplicar no mercado doméstico. Haverá disposição para retirar uma soma razoável para investir em um país de Terceiro Mundo hoje? Mas esse governante terá de ponderar isso dentro da gama de problemas e de recursos que dispõe e deverá fazer de alguma forma.

 

SafraNão lhe parece um falso dilema essa oposição entre desenvolvimento e meio ambiente? Não se é possível fazer as duas coisas, ou seja, a economia crescer e preservar o meio ambiente?

Isaías Macedo – Pode-se e, de hoje em diante, terá que ser feito. Não se fez até hoje, mas não vejo qualquer incompatibilidade nisso. Vejo incompatibilidade é entre manter o status quo, o paradigma de desenvolvimento adotado atualmente, e a sustentabilidade. Esse paradigma não poderá ser mantido. As economias poderão continuar crescendo, entretanto sob novos padrões. Algumas sociedades consomem, proporcionalmente, 20 vezes mais do que outras e consomem mais porque são perdulárias, porque foram “treinadas” para gastar muito, para jogar fora. Se estivessem consumindo, por exemplo, três vezes mais do que outras menos desenvolvidas, ainda estariam bem. Isso precisa mudar.

 

SafraTomando o caso brasileiro, agora, qual deverá ser o papel da conversação de energia e da produção de energia renovável dentro desse processo de redução de emissões?

Isaías Macedo – O papel é muito relevante. No ritmo normal de crescimento do setor de etanol no Brasil, por exemplo, em 2020, estaremos mitigando cerca de 40% das emissões do setor de transportes. Esse é um grande número. Outra coisa é, além de fazer isso, melhorar a eficiência dos processos térmicos, utilizar o bagaço e um pouco da palha e colocar mais 52 terawatts/hora de energia na rede no período de seca. Como estamos trabalhando cada vez com menor capacidade de reservatórios, isso terá um efeito multiplicador enorme na energia total que é ofertada. Dobrará praticamente. Se você garante o suprimento na seca (por meio da cogeração), será possível ter energia firme equivalente no período de chuvas. Esse tipo de avanço é apenas um exemplo no setor de cana, mas é extremamente importante. Não quer dizer nada demais se olharmos os números e vermos que precisaremos de mais 7 milhões de hectares para o plantio, porque consigo crescer em terras recuperadas a partir da intensificação do uso de pastagens. Isso não agrava o problema. Ao contrário, vou melhorar o estoque de carbono no solo. Quando uma usina é implantada, é necessário que isso seja feito respeitando as reservas legais, as áreas de preservação permanente – que antigamente não era feito bem assim –, além de promover um sistema de reflorestamento de áreas destinadas à preservação ao longo do tempo, com cuidados conservacionistas para sempre aumentar a taxa de carbono do solo no próprio cultivo da cana. Isso significará uma contribuição enorme para o clima global e não sai do escopo de trabalho da usina. É uma coisa adicional que ela faz e que é extremamente importante.

 

Safra – Levando-se em conta as projeções atuais para a produção de cana e a maior eficiência tecnológica das caldeiras que estão sendo implantadas, quais as projeções para a participação da cana na matriz energética, no cenário para 2020?

Isaías Macedo – Não cheguei a fazer a conta, mas a participação da cana crescerá. De qualquer forma, essa conta depende de como você faz. Hoje, ela é feita em cima da energia primária. Nesse caso, a cana tem participação de 16%. Mas será muito mais do que isso. Em energia elétrica, se conseguirmos produzir 52 terawatts/hora, representará perto de 10% da eletricidade que será usada ou um pouco mais, diante de menos de 3% hoje. Mas esse é um valor médio, porque a tendência é de que a cogeração supere aqueles valores. No setor de combustíveis, a participação da cana será maior, o que significa que aqueles 16% vão superar os 20%.

 

SafraQuanto o País poderia reduzir suas emissões nesse cenário?

Isaías Macedo – Não sei como os demais setores vão reagir. Mas o que o governo federal está prometendo, tomando uma linha de base – o que é uma coisa meio ilusória, porque você pode chutar tanto para mais quanto para menos –, é uma redução das emissões entre 36% e 39% até 2020. O que o Estado de São Paulo propõe, e esses são os dois números que temos até o momento, é a redução de 20% sobre um valor fixo estabelecido para 2005. Provavelmente, esse número é muito maior do que o do governo federal, porque a redução incide sobre um valor fixo. No outro caso, promete-se uma redução em torno de 40% sobre um valor que tende a crescer mais de 40% até 2020. Não sei qual o nível de detalhe adotado no cálculo dessas projeções. A grande contribuição para a redução das emissões no País virá das projeções de redução de 80% do desmatamento na Amazônia. Essa diminuição responderá por metade da meta de redução de emissões proposta pelo governo federal. Outra redução importante deverá vir da agricultura e da pecuária, com a adoção de novas práticas, com menor impacto para as emissões de gases do efeito estufa. O restante (da redução das emissões) virá de diversos setores, inclusive combustíveis. Em relação ao valor absoluto, poderemos atingir uma redução de mais de 100 milhões de toneladas de CO2 por ano a partir do etanol. Em 2005, o Brasil já consumia mais de 12 bilhões de litros por ano. A redução de emissão que esse consumo de etanol produziu em relação à gasolina já está calculada. Estamos considerando o que vai acontecer dali para frente. Aquele número, na casa dos 130 milhões de toneladas, representa aproximadamente 40% das emissões brasileiras totais no setor de transporte. É um número bem alto.

 

SafraOlhando em escala global, o esforço exigido para conter o aquecimento em 2 graus é muito grande. O senhor está otimista?

Isaías Macedo – Não, não estou otimista. No espírito que estou vendo hoje, acho que não conseguiremos chegar a 2030 com emissão de 25 gigatoneladas de CO2 (nível máximo para evitar que a Terra continue aquecendo). Estamos emitindo mais de 50 gigatoneladas. Mas acho que esse espírito tende a mudar após Copenhague, diante da gravidade da situação. E se houver mudança aí será outra coisa. Esse é um jogo em que todos só têm a ganhar. No caso do Brasil, há possibilidades enormes. O País contabiliza em torno de 170 milhões de hectares de pastagens, com uma densidade de animais por hectare baixíssima e que pode ser aumentada em 50% no mínimo, liberando 30 milhões de hectares para outras aplicações. Não há a necessidade de ocupar terras novas, porque você poderá trabalhar em áreas de pastagens para explorar a maior parte dessas culturas novas. Quando se começa a computar essas coisas percebe-se que o ganho possível é muito grande. A questão é olhar de frente o problema e decidir fazer. Mas há outra questão que tem emperrado o avanço dessas soluções: por que devo fazer essas coisas se o outro não vai? Todo o mundo terá que assumir compromissos parecidos, senão uma economia acabará tendo que enfrentar custos mais elevados que outra, desequilibrando as relações de competição e o esforço global contra as emissões. Será preciso mudar ainda mais o espírito da discussão antes de ficarmos otimistas.

 

 

 

 

 

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