Marcos Sawaya Jank
Presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica)

Etanol com certificação
Lauro Veiga Filho
Nos últimos 200 anos ou mais, o petróleo vem sendo consumido em larga escala, em todo o mundo, sem qualquer restrição ambiental ou social. A escalada recente dos preços do óleo, agora em processo de reversão, e a ameaça do aquecimento global, gerada exatamente pelo consumo sem limites de combustíveis fósseis, serviram para acelerar a produção de etanol e de outros combustíveis renováveis. “Nunca se discutiu se o petróleo é social e ambientalmente correto. E nós estamos sob tiroteio, embora representemos menos de 1% do mundo do petróleo”, afirma Marcos Sawaya Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). O setor, coloca Jank, aceita e está disposto a discutir os marcos de um processo de certificação de sustentabilidade ambiental, social e econômica para o etanol. Mas deseja que a discussão seja ampliada. “Se eles querem conversar sobre o problema do crescimento da cana e seu impacto sobre áreas agrícolas e sobre a natureza, também queremos conversar sobre a eficiência da cana versus milho, por exemplo (...). Pretendemos comparar os biocombustíveis aos fósseis. Não tem sentido certificar os biocombustíveis e não fazer o mesmo com os fósseis”. Na entrevista a seguir, Jank comenta ainda os efeitos da crise financeira na indústria da cana e as perspectivas de transformar o etanol em commodity global.
Safra – A crise financeira mundial já atingiu o setor agrícola?
Marcos Sawaya Jank – O Ministério da Fazenda tem se portado muito bem. O Banco Central está agindo, liberando recursos das reservas, liberando o próprio depósito compulsório. Portanto, acredito que as coisas tendem a se normalizar. Mas ainda viveremos um período de gangorra, com o sobe-e-desce das bolsas, por mais um longo tempo. Por isso é difícil prever o que vai acontecer. Por enquanto, a crise é essencialmente financeira e não atingiu a economia real, salvo uma ou outra empresa que enfrentava problemas com derivativos.
Safra – Há risco de retração nos investimentos no setor sucroalcooleiro?
Jank – Acredito que o que vinha sendo feito será concluído. A nossa grande preocupação é que os projetos que já estão no chão, as usinas que já estão sendo levantadas, inclusive na parte de cogeração, se realizem. Pode ser que, daqui para frente, haja alguma redução de velocidade por estarmos com dois anos de preços ruins para açúcar, álcool e cana. Os preços tendem a melhorar, mas não existe mais aquele entusiasmo notado há três anos. Por outro lado, quando não há muito recurso tende a ser mais difícil lançar novos projetos. Pode ser que, daqui para frente, esse processo se desacelere um pouco.
Safra – Empresas e grupos que estão com projetos em andamento enfrentam problemas para captar recursos no mercado e financiar seus investimentos?
Jank – Existe um problema de crédito na economia brasileira. Se a crise tivesse acontecido no começo da safra de cana teria sido um desastre. Mas estamos no fim da safra e as coisas estão bastante definidas no setor. O problema maior é o crédito para exportação, que tinha sumido e ainda está escasso, e a questão dos financiamentos que foram contratados e precisam se concretizar. Estou falando de projetos que vêm lá de trás. É necessário lembrar que a cana não é uma cultura anual, que exige um período de maturação de cinco ou seis anos para começar a dar retorno. Nossa única preocupação está na questão do financiamento e do crédito. Neste momento, não vemos nenhum problema na área do mercado em si.
Safra – Como o País tem se articulado para fazer frente às pressões internacionais contra o etanol?
Jank – Acho que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido um grande defensor dessa tese dos biocombustíveis. Uma tese que possui duas origens, como se sabe. A primeira é a escassez de petróleo. O produto caro e cada vez mais escasso permite o surgimento de combustíveis renováveis alternativos. E o Brasil começou lá atrás, na crise do petróleo dos anos 70. Os outros países estão começando agora, com a crise presente. Em segundo, está a questão da mitigação do aquecimento global. Quando você abastece seu carro flex com etanol reduz em 90% as emissões de dióxido de carbono (CO2). Como os biocombustíveis começaram a ameaçar o mundo do petróleo e a gerar preocupações nas indústrias de alimentos, no caso do milho nos Estados Unidos, não no caso brasileiro, começou-se a falar muita coisa.
Safra – Quais os argumentos ainda levantados contra o etanol?
Jank – Fala-se muito sobre a questão da suposta oposição entre a produção de alimentos e a de energia, por exemplo. Essa tese não se sustenta no Brasil. Aqui, pelo que sabemos, é alimentos mais energia e mais fibras e florestas. Fazemos alimentos, ração, fibra, floresta e, obviamente, também combustíveis e, agora, cada vez mais eletricidade. Tudo utilizando basicamente o mesmo estoque de terras há muitos anos. O que está havendo é um processo de intensificação do uso da terra. O plantio de cana, claro, tem crescido, mas o milho e a soja mais do que a cana, inclusive com ganhos históricos de produtividade. O que vejo é um sistema no qual a tendência é termos um produtor cada vez mais especializado numa certa atividade. A Região Centro-Oeste, que era basicamente dedicada à pecuária de corte e à soja, tende a ser muito mais diversificada. Temos, hoje, pelo menos dez commodities importantes vindo para o Centro-Oeste. Na área agrícola, temos soja, milho, algodão, cana, trigo e café. E na pecuária, bovinocultura de corte e de leite, suinocultura e avicultura. Sem falar no tomate. Isso mostra que há diversificação crescente, que se traduz basicamente em mais renda para o produtor.
Safra – O que ocorre quando há o desembarque de usinas em larga escala em determinadas regiões?
Jank – Quando você chega com uma usina numa região tradicional de pecuária – e 70% da expansão da cana é feita basicamente em cima de pastagens degradadas –, essa indústria será uma alternativa importante de renda para o produtor, já que este passará a registrar faturamento por hectare oito a dez vezes maior com a cana.
Safra – A expansão dos canaviais tem acontecido, então, principalmente em áreas de pastagens degradadas?
Jank – Os dados levantados pelo Ministério da Agricultura e pela Companhia Nacional de Abastecimento, e também temos esses dados em nosso sistema chamado CanaSat, mostram que entre 60% e 70% do crescimento ocorre sobre áreas de pastagens e 30% sobre áreas agrícolas. As pastagens de fato dominam esse movimento. Até porque, quando a cana cresce em área agrícola, o processo de arrendamento é mais complicado, principalmente se ocorrer em áreas onde se faz safra e safrinha. Em Goiás estão surgindo sistemas de arrendamento de terra para cana com pagamento em soja, o que ilustra a dificuldade de crescimento em área agrícola. Mas há o fato de que a produtividade tende a ser mais elevada em áreas de agricultura. Acho que vamos observar o desenvolvimento de sistemas interessantes no Centro-Oeste. Por exemplo, algo que tende a acontecer é a rotação de cana e leguminosas, na hora de renovação do canavial, o que já é feito em São Paulo; novos formatos contratuais, com produtores que vão arrendar terra, outros que vão ser fornecedores de cana, outros que farão contratos com base em soja. Tudo isso significa uma dinâmica grande para o Centro-Oeste.
Safra – Voltando novamente ao cenário internacional, como o senhor vê as articulações entre governo e iniciativa privada na defesa do etanol?
Jank – Acredito que isso tem caminhado muito. Acho que o Brasil hoje se defende bem. Temos ouvido lá fora até que somos um exemplo a ser seguido na questão de como estamos nos defendendo. Abrimos escritórios de representação na Europa, nos Estados Unidos. Na sexta-feira (dia 17 de outubro) vou à Ásia para abrir um escritório de representação da Unica. Já possuímos escritórios em Washington e Bruxelas.
Safra – Há apoio oficial nessa iniciativa?
Jank – Existe apoio grande e parceria estreita em muitas atividades. Mas minha visão é de que quem tem que fazer é o setor privado, que precisa estar presente lá fora e saber se defender. Não acredito que possamos depender de adido agrícola. Na área de negociações internacionais, antes de assumir a Unica, trabalhei três anos no Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), que é integralmente patrocinado pela iniciativa privada, com o objetivo de ter uma equipe permanente acompanhando as questões envolvidas no comércio internacional. Recentemente criamos o Instituto para o Agronegócio Responsável (Ares), com 20 entidades do setor, para defendê-lo de acusações que vem sofrendo em relação à sustentabilidade ambiental. O setor privado tem de se organizar e partir para as linhas de frente desse debate. O governo tem o seu papel, é claro. Quando o presidente Lula vai à Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e desmente acusações infundadas, isso tem repercussão imensa. Mas temos a obrigação de fazer isso todos os dias em nossos escritórios lá fora. Estamos fazendo comunicação aqui e lá fora, criando a marca do etanol aqui dentro. Já pleiteamos à Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para que, até o fim do ano, todas as bombas de álcool comum recebam a inscrição etanol, mesmo porque é o nome usado no mundo inteiro.
Safra – Seria algum processo em direção ao estabelecimento de um certificado de origem, por exemplo?
Jank – Etanol é o nome químico do álcool comum. Mas, hoje, você vai a qualquer posto, pede ao frentista para abastecer o tanque com etanol e, a despeito de a imprensa utilizar essa denominação, a maioria não sabe que o álcool comum que o Brasil tem em qualquer posto é o mesmo etanol que se está falando lá fora e que o mundo está atrás. Queremos usar o nome até para diferenciá-lo do álcool de bebida. Hoje, em São Paulo e em outros Estados, há campanhas severíssimas dizendo que álcool e volante não combinam. Não combinam no motorista, mas combinam perfeitamente no carro. Fizemos uma campanha em escala nacional, distribuímos cartilhas por meio da grande mídia e, no exterior, fizemos campanhas em rádio, em jornais e, agora, estamos colocando nas principais revistas européias, como a L’Express, a Economist.
Safra – Como essa questão do balanço ambiental do etanol tem sido colocada lá fora?
Jank – O grosso das acusações diz respeito ao temor internacional de que o crescimento da cana afete, direta ou indiretamente, as florestas brasileiras. Teme-se, lá fora, que o avanço da cana estaria causando desmatamento. Essa é uma acusação fácil de ser respondida porque, primeiro, o grosso da expansão não acontece em áreas de florestas, mas em áreas agrícolas e de pastagens. Surge, porém, outra tese segundo a qual o avanço dos canaviais provoca impactos indiretos, que também não se sustenta. Sabemos que, no Brasil, o crescimento da agricultura não tem empurrado a pecuária, mas feito com que ela se torne mais eficiente, porque compete com a agricultura no que diz respeito às possibilidades de oferecer rentabilidade ao produtor. Questiona-se, então, por que está havendo desmatamento na Amazônia. Ele ocorre há muito tempo e não necessariamente por culpa da cana. A culpa maior pelo desmatamento está na falta de fiscalização e na de direitos de propriedade. Tem-se na Amazônia uma situação fundiária muito irregular. Praticamente 75% do seu território são terras do governo ou devolutas, o que é um convite à invasão, à posse. Tentamos colocar isso lá fora, assim como demonstrar que não existe conflito entre produção de alimentos e de energia no Brasil. Recentemente, surgiram acusações de trabalho escravo e infantil nas lavouras de cana e nas usinas. Estamos neste momento desenvolvendo um protocolo com o governo federal, esse sim, de certificação de usinas que adotam melhores práticas de produção. Participamos de cinco ou seis fóruns internacionais na área de certificação. Aceitamos a idéia da certificação, mas queremos que isso seja balanceado justamente.
Safra – Essa certificação ficaria a cargo de quem precisamente?
Jank – A dificuldade da certificação é que ela seja balanceada. O que isso significa? Primeiro, compradores e vendedores devem entrar em acordo. Não vamos aceitar, por exemplo, como foi aventado há um ano, uma certificação européia para álcool de cana brasileiro. Isso seria um total desbalanceamento. Inclusive, os europeus queriam que a certificação fosse apenas para a área ambiental. Para nós, ela deve ser de sustentabilidade, o que inclui, além da parte ambiental, as vertentes social e econômica. Se eles querem conversar sobre o problema do crescimento da cana e seu impacto sobre áreas agrícolas e sobre a natureza, também queremos conversar sobre a eficiência da cana versus milho, por exemplo, que é um produto que está sendo utilizado em vários países para produzir álcool. Pretendemos comparar os biocombustíveis aos fósseis. Não tem sentido certificar os biocombustíveis e não fazer o mesmo com os fósseis. Temos 200 anos de uso do petróleo e nunca se discutiu se ele é social e ambientalmente correto. E nós estamos sob tiroteio, embora representemos menos de 1% do mundo do petróleo. De novo, queremos que seja feita a comparação entre fósseis e renováveis, que álcool de cana seja comparado com o de trigo, beterraba e milho. Queremos que esse fórum que se pretende criar não seja um fórum que permita aos países do Norte ditar regras para os do Sul. As regras a serem definidas devem valer para todo mundo.
Safra – Esse seria um fórum multilateral? Como funcionaria?
Jank – Existem vários fóruns em andamento, atualmente. Há leis elaboradas por governos isolados; uma diretiva em discussão na União Européia (UE); uma norma que está sendo criada nos Estados Unidos pelo EPA (Environmental Protection Agency); e discussões entre governos. Fazemos parte do Fórum Internacional de Biocombustíveis, que envolve seis países. O mesmo tema vem sendo discutido no memorando Brasil e Estados Unidos, no fórum de governos chamado Global Biofuels Energy Partnership (Parceria Global sobre Biocombustíveis) e existe um grande número de fóruns diversificados sendo criado por organizações não-governamentais, mesas-redondas. Ouvi dizer que há perto de 50 no mundo, apenas ocupados com o debate sobre sustentabilidade de biocombustíveis. Não falta no mundo, hoje, lugar para sentar e a Unica busca participar daqueles que envolvem a cana mais diretamente, tentando tornar essa discussão mais equilibrada, não uma coisa imposta de cima para baixo.
Safra – Quais as possibilidades de se ter a consolidação de um mercado global para o etanol?
Jank – Esse é um dos nossos desafios. Olhando historicamente, veremos que a indústria do álcool cresceu graças ao suporte governamental nos anos 70. Depois, os subsídios governamentais desapareceram. Surgiu, mais recentemente, o fenômeno dos veículos com motor flexfuel. Atualmente, perto de 85% da produção de etanol tem como destino o mercado doméstico. Apenas 15% são exportados. Esperamos que essa parcela exportada cresça. Mas há uma contradição a ser resolvida. O mundo enfrenta dois problemas graves. Um deles é a escassez de petróleo, que o tornou muito caro. O segundo é o aquecimento global. O etanol é parte da solução para os dois problemas. O etanol é parte da solução para a escassez de petróleo e parte da solução para o aquecimento global, já que reduz as emissões em 90% (comparativamente à gasolina). Só que os países, ao invés de buscarem o melhor etanol para comprar, protegem seus próprios agricultores. Nos Estados Unidos, o programa (de produção de etanol) está voltado para o produtor de milho. A União Européia está fazendo etanol de trigo e beterraba. O trigo produz 2 mil litros de etanol por hectare, a cana 7,5 mil litros e pode produzir, lá na frente, 13 mil litros com as novas variedades e com o etanol de segunda geração, obtido de biomassa, que está vindo aí. Temos um produto muito melhor, que permite redução de CO2 muito mais importante, mas não conseguimos entrar naqueles mercados. A grande contradição a que me referi é que o mundo quer depender menos de petróleo, mas o petróleo é completamente liberalizado no mundo. Você compra de quem quiser, com tarifa zero. E, no caso da melhor alternativa comercial que existe, que é o etanol, o mercado é altamente protegido. Não conseguimos vender para os Estados Unidos de forma direta, conseguimos entrar apenas em alguns países da União Européia, como a Suécia, e temos dificuldades para entrar na Ásia. Acho que pode surgir uma chance nos próximos anos de os países se abrirem mais ao etanol. Mas, neste momento, o que está puxando a nossa indústria é o carro flex.
Safra – A discussão a respeito das sobretaxas impostas às importações de etanol pelos Estados Unidos e Europa, pelo jeito, não tem avançado?
Jank – Estamos colocando essa questão em pauta. Há todo um debate sobre tarifas. Por exemplo, no recente fracasso da Rodada Doha, no fim de julho, em Genebra, havia sido colocada sobre a mesa a proposta de uma redução tarifária importante. Infelizmente, a reunião terminou em fracasso. Mas o debate continua. É a razão que nos levou a abrir escritórios lá fora. Também temos que cuidar das barreiras não-tarifárias. Porque uma certificação malfeita, tendenciosa, pode significar uma barreira não-tarifária ao impedir que você exporte o produto. Nessa questão da consolidação do etanol como commodity global, de certa forma, é preciso atuar para reduzir barreiras tarifárias clássicas e negociar cotas e outras possibilidades; e ao mesmo tempo cuidar para que o que vier não nos impeça de exportar, criando discriminação contra o nosso etanol em favor de fósseis ou outras fontes energéticas renováveis, mas menos eficientes que o etanol brasileiro.
Safra – A questão das queimadas ainda é ponto importante no debate internacional?
Jank – Quando se fala em questões ambientais, a maior preocupação das pessoas lá fora é ter certeza sobre o porcentual de redução de CO2 que o etanol promove em relação à gasolina, chamado de efeito de mitigação do aquecimento global. Existe uma metodologia, denominada análise de ciclo de vida, e um debate sobre isso. O segundo grande debate diz respeito à questão do uso da terra e seu efeito para as florestas. A queimada, já foi notada no exterior e nós também já percebemos, tende a desaparecer pelo menos no Centro-Sul do País. O Nordeste terá dificuldades por causa do problema de declividade. Na região Centro-Sul, os novos projetos precisam contemplar a mecanização. Diria que essa é uma questão mais nacional, que tem a ver com os municípios canavieiros, onde a queimada acontece. O que estamos fazendo é tentar apressar o seu fim. Em São Paulo, a legislação estabelecia 2021 como data para o fim da queima da cana e estamos puxando esse prazo para 2014. Na velocidade em que a compra de máquinas está crescendo, pode ser até que consigamos eliminá-las em 2013. É uma questão de dar tempo ao tempo para que as empresas possam comprar as máquinas. É preciso lembrar que não são só as usinas. Há 70 mil fornecedores de cana no Brasil, muitos deles pequenos proprietários. A população pode ficar tranqüila que, em pouco tempo, estaremos livres do problema das queimadas. Além disso, é um contra-senso queimar. Quando não há a queima, é possível recuperar um terço da energia que está na palha, que são as folhas e pontas. E isso pode ser utilizado para fazer eletricidade. A grande meta é transformar o que hoje é fuligem e fumaça em luz, por meio da mecanização e das caldeiras de alta pressão que precisam ser instaladas em todas as usinas para gerar e exportar energia elétrica.
Safra – Como fica a situação dos trabalhadores no corte da cana?
Jank – Obviamente, existe a questão social. São Paulo possui 180 mil cortadores e esse número chegará a quase zero em dez anos. Precisamos de programas de educação, qualificação e requalificação de trabalhadores. Uma parte dos cortadores pode perfeitamente, e já temos muitas experiências, se transformar em operadores de máquinas. Uma máquina substitui em torno de oitenta trabalhadores. Mas não é uma única máquina. Há comboios, caminhões e toda a estrutura que permite uma criação importante de empregos, mais bem remunerados, mais qualificados, o que exige a requalificação e também maior nível educacional. Esse é um grande desafio colocado de forma paralela ao da mecanização.
Safra – Retomando o tema alimentos versus energia, a queda recente nos preços das commodities agrícolas não deixa esse tipo de discussão ultrapassada?
Jank – Quando os preços dos alimentos subiram, algumas organizações internacionais apontarem o dedo atribuindo a culpa ao etanol. Alguns estudos chegaram a sugerir que 70% do aumento dos preços dos alimentos devia-se aos biocombustíveis, o que é um absurdo. Agora, que os preços estão em baixa, será que foi culpa nossa? Será que reduzimos áreas de plantio, abrindo espaço para maior produção de alimentos? Claramente não foi. A conclusão é a seguinte: muito do aumento dos preços das commodities nos últimos tempos era pura especulação financeira. Investidores inseguros acerca de ativos financeiros tradicionais migraram para commodities. Houve overshooting nos preços do petróleo, do trigo, da soja, do milho e, agora, os preços voltam para trás. Não teve nada a ver com a produção de biocombustíveis, pois se somarmos toda a produção mundial veremos que não ocupam 1% das terras aráveis. No Brasil, essa relação fica em torno de 1,1%. Mas em outros países, situa-se abaixo de 1%. Estamos falando de 15 milhões de hectares destinados à produção de biocombustíveis no mundo, para 1,6 bilhão de hectares utilizados na produção agrícola.