Credibilidade internacional
Ming Liu*
Muito tem se falado sobre sustentabilidade, aquecimento global, movimento verde, uso de novas fontes de energia renováveis e responsabilidade socioambiental. Em outros setores e segmentos, que no passado desconheciam o que era gestão ambiental e responsabilidade social, hoje, em alguns momentos se confundem nos dois fundamentos e são a força institucional motriz para o sucesso no mercado.
Entre esses temas, o Brasil aparece com destaque em distintos debates mundiais. O setor de orgânicos é um dos exemplos, pois nos últimos dez anos demonstrou relevante crescimento, despertado primeiramente pela conscientização de toda cadeia produtiva e pela busca por qualidade de vida.
O conceito de orgânicos não se restringe apenas a produto livre de químicos, pesticidas, hormônios, antibióticos, radiação e outros tratamentos feitos e produzidos pelo homem. Inclui também o pensamento filosófico do desenvolvimento da cadeia produtiva, em que o relacionamento das pessoas, o respeito aos animais, o meio onde se produz e suas conseqüências são fatores determinantes para sua certificação e aceitação junto ao consumidor final.
Hoje, após a regulamentação da agricultura orgânica (Lei 10.831), o grande desafio é fazer desse trabalho uma plataforma de propagação em escala global, quebrando paradigmas do pensamento purista. Este é o objetivo do Projeto Organics Brasil: divulgar e disseminar a capacidade de transformar projetos, sonhos e histórias verdadeiras em produtos orgânicos, com a cara e a marca do Brasil no mercado internacional.
A regulamentação nacional definirá parâmetros iniciais para conformidade dos produtos para acreditação internacional, estabelecerá parâmetros uniformes na atuação para as empresas (certificadoras, processadoras e exportadoras) e até para o consumidor final que poderá compreender e distinguir um produto orgânico de um natural, hidropônico e não-transgênico, entre outros.
Em 2007, com intuito de conhecer o que exportamos, o projeto iniciou mapeamento dos projetos que possuem certificação destinada ao mercado internacional, com o apoio das certificadoras IBD, Ecocert, IMO e BCS. Esse levantamento, inédito e finalizado recentemente, mostra que existem 932,12 mil hectares de área de produção orgânica certificada e acreditada para o mercado internacional; além de 6,182 milhões de hectares de produtos de base extrativista. Toda a área em questão é demarcada, registrada e com garantia de rastreabilidade da origem dos produtos, estabelecendo reputação reconhecida nos principais mercados consumidores finais da Europa, Ásia e América do Norte.
Os grandes desafios para o mercado nacional serão: o desenvolvimento do mercado interno; a conscientização dos consumidores para valorizarem a ética do produto e da cadeia orgânica; a produção em escala de mercado, alcançando a sustentabilidade dentro do setor sem perder seus fundamentos; e competir no mercado global, que a cada dia reconhece o Brasil como um dos principais potenciais fornecedores. Podemos esperar que agora, regulamentado, o setor se ajuste e crie representatividade própria para lutar pelos seus interesses e disseminar seus conceitos.
*Ming Liu é coordenador-executivo do Projeto Organics Brasil – www.organicsbrasil.org
Para enfrentar a crise mundial
José Silva*
Há várias semanas, vivemos sobressaltados diante da verdadeira gangorra em que se transformaram os mercados mundiais. Neste momento, não há setor ou país que possa considerar-se imune à crise financeira internacional. No tocante à agricultura, pouco depois de anunciada a maior colheita de grãos da história – 143,8 milhões de toneladas – as atenções se voltam para o plantio da safra 2008/2009.
Em termos práticos, a maior dificuldade no momento está na compra de insumos, especialmente fertilizantes, cujos preços são atrelados ao dólar, o que causa impactos relevantes sobre os custos dos produtores. Para completar o cenário de incertezas, as restrições à liberação de crédito suscitam dúvidas quanto ao desempenho da próxima colheita. No caso específico dos exportadores, há ainda a natural retração dos mercados consumidores internacionais.
Atento ao quadro, o governo federal já anunciou medidas para garantir a próxima safra. No total, representarão injeção de quase R$ 15 bilhões em recursos na agricultura. É importante ainda que seja garantido o aporte de R$ 13 bilhões em crédito, previstos no último Plano Safra para a agricultura familiar, anunciado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Desse total, 10% devem vir para Minas Gerais, aproximadamente R$ 1,3 bilhão.
Resta aos produtores e a todos que se ocupam da atividade agropecuária seguir produzindo, na expectativa de que as medidas tomadas para amenizar os efeitos da maior crise mundial em décadas tenham bom resultado.
Se o momento é de indefinições, de uma coisa tenho certeza: os agricultores estão cada vez mais preparados, com maior acesso à informação e à tecnologia para conduzir de forma sustentável seus negócios.
Afinal, não foi à toa que o crédito oficial para a agricultura familiar cresceu mais de 500% desde 2002. Os recursos para a assistência técnica e extensão rural foram ampliados em mais de 1.200% no mesmo período. O investimento deve sempre vir acompanhado de conhecimento para o desenvolvimento da agricultura e contemplar não apenas o aumento da produção, em termos numéricos, mas principalmente a sustentação das populações rurais em condições dignas.
Destaco alguns números para situar melhor o leitor dos grandes centros urbanos a respeito da importância da agricultura familiar: este é o segmento que garante 70% dos alimentos da cesta básica consumidos no Brasil, sendo 67% do feijão, 56% do leite, 89% da mandioca e 70% da carne de frango.
Com certeza, haverá redução no consumo mundial, porém, principalmente de produtos supérfluos e de alimentos. Por isso, esta é uma oportunidade para o Brasil, que possui muitas vantagens competitivas na agricultura, em relação a outros países.
É tempo de agregar valor aos produtos agrícolas, por meio de investimento na qualidade. Também é preciso que os produtores avancem na profissionalização da atividade, na gestão do negócio, com otimização do uso de insumos para o controle de pragas e doenças e redução de perdas na colheita.
(*) José Silva é engenheiro agrônomo, presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) e da Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural (Asbraer)
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