
Alteração da cor do hilo de sementes de soja por variações climáticas
por Claudete Teixeira Moreira
A cor do hilo da semente de soja é uma das principais características utilizadas pelos melhoristas para descrever uma cultivar. Nos laboratórios de análise de sementes, essa característica é bastante útil para diferenciar cultivares e detectar misturas. Além da coloração do hilo, outras características da semente, como o tamanho médio, o formato, a coloração e o aspecto do tegumento (lustro) também são utilizados para descrever a variedade de soja.
As cultivares utilizadas pelos agricultores apresentam sementes de tegumento amarelo, pois as indústrias de processamento impõem restrições para o recebimento de grãos coloridos.
Apesar de apresentar controle genético relativamente simples, a cor do hilo pode apresentar variações de tonalidade em função da origem genética e das condições ambientais. A ocorrência dessas variações de cor depende da constituição genética das plantas e da condição ambiental durante a produção de sementes.
Essas variações da cor do hilo, por efeito ambiental, devem ser levadas em conta pelos laboratórios para não serem confundidas como mistura de cultivares, o que poderia levar à condenação do lote, causando sérios prejuízos aos produtores de sementes.
Existe pouca informação sobre a influência das condições ambientais na cor do hilo. Há relatos que no Japão as condições de temperaturas mais frias (menor que 15ºC) causam uma coloração marrom ao redor do hilo em algumas cultivares com pubescência marrom e de hilo amarelo. Essa intensificação da cor é mais acentuada quando as plantas são expostas a temperaturas frias durante duas a três semanas depois do início da floração.
As cultivares de soja com tegumento e hilo amarelos também são as preferidas na América do Norte para o mercado de exportação. Em algumas regiões no Canadá, ocorrem temperaturas frias (menor que 15ºC) com freqüência durante o desenvolvimento das sementes. Outros relatos indicam que a cor do hilo da semente pode escurecer ou descolorir quando expostos a essas temperaturas durante o desenvolvimento das sementes e que a intensidade da descoloração depende da quantidade de temperaturas frias a que as plantas são expostas.
No Brasil, é comum observar variações na cor do hilo em cultivares de soja, devido às influências ambientais. Temperaturas altas, associadas ou não à ocorrência de veranicos, durante a fase de desenvolvimento da semente, normalmente contribuem para modificar a coloração típica do hilo. Assim, cultivares podem apresentar hilo onde a cor preta ou marrom sofre descoloração de intensidade variada, podendo parte do hilo ficar descolorido. Hilos de cor marrom-clara podem ficar totalmente despigmentados, aparentando cor amarelada. Também são observados hilos com uma parte normalmente colorida e outra mais clara, bastante despigmentada. Em casos extremos, em que a lavoura sofre maturação antecipada por ocorrência de veranico e/ou altas temperaturas, ou mesmo por doenças, as sementes podem apresentar hilo descolorido e redução no seu tamanho.
Outro exemplo do efeito da temperatura na tonalidade da cor do hilo é observado nas sementes produzidas na Região Sul. Para uma mesma cultivar, as sementes produzidas no sul do Paraná, onde as temperaturas são mais amenas na fase de maturação, apresentam cor e tonalidade típicas, enquanto no norte do Paraná, com temperaturas mais elevadas nessa fase, observa-se uma descoloração ou diminuição na tonalidade da cor.
Na safra agrícola 1998/1999, verificou-se a ocorrência de variações nas cores de hilo das cultivares. BRS Carla e BRS Celeste em algumas regiões onde ocorreram veranicos associados a altas temperaturas durante a formação das sementes. Nessas condições, a cultivar BRS Carla apresentou hilo despigmentado, com a descoloração da cor marrom típica da semente. A cultivar BRS Celeste, nas mesmas condições, apresentou descoloração parcial do preto típico, que variou da cor cinza a quase despigmentado ou exibindo matizes da cor marrom.
Esse fato também tem sido observado nos últimos anos, em cultivares de soja, como a Doko, a GO/BRS 161 (Catalão), BRS/MG 68 (Vencedora) e UFV 2001.
O conhecimento da possibilidade de mudança de cor do hilo da soja em função de outras determinantes, como a origem genética e influência das condições climáticas, torna-se importante para não atribuir essa modificação como sendo causada por mistura de variedades, o que poderia condenar incorretamente vários lotes de soja, em prejuízo dos produtores.
Com a Lei de Proteção de Cultivares esse assunto passou a ser amplamente discutido, pois a cor do hilo é um descritor obrigatório na caracterização de uma nova cultivar para solicitação de proteção no Serviço Nacional de Proteção de Cultivares do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, seguindo as exigências da União Internacional para Proteção de Obtenções Vegetais (UPOV), onde não estão previstas essas variações.
Claudete Teixeira Moreira é
Pesquisadora da Embrapa Cerrados, Planaltina - DF, na área de pesquisa de soja.